sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

As tristes – e nefastas – histórias de López Rega e Bignone (2ª parte)

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As tristes – e nefastas – histórias de
López Rega e Bignone
2ª parte*

Veja a 1ª parte em:
http://javiervillanuevaliteratura.blogspot.com.br/2017/02/as-tristes-e-nefastas-historias-de.html

– A minha tia era irmã da amante fiel do Bruxo; e ela foi casada com um argentino, militante do peronismo nos anos de 1970. Ela poderia te ajudar na tua pesquisa.
Foi assim que, revisando, semanas depois uma série de Cuadernos Laprida – marca famosa de cadernos argentinos das décadas de 1940 a 70 – que a tia da Marta mantinha escondidos em dois caixotes no porão, Pedro descobriu alguns textos interessantes que passo a copiar agora:


Capítulo 1


João Inácio Fagundes saiu da balsa que o tinha tirado de Foz do Iguaçu, e subiu as escadas de madeira que o levariam para longe da guerrilha de Porecatu, no norte do estado do Paraná.

Passou pela revista de documentos da Gendarmería Nacional e entrou na Argentina pela minúscula vila de Puerto Iguazú. Era o inverno de 1953 e começava seu longo exílio.

A história de João Inácio e seu compromisso com a guerrilha camponesa havia começado anos atrás, quando milhares de famílias se fixaram na região de Porucatu, na fronteira do Paraná com Santa Catarina, entusiasmadas pela promessa do governador Manoel Ribas, na realidade um mero interventor nomeado por Getúlio Vargas, presidente da República naquela época.

Para colonizar uma área de mais de 120 mil hectares, Ribas havia anunciado que as famílias que se estabelecessem para desenvolver a agricultura iriam adquirir as propriedades, seis anos depois, a preços muito acessíveis. Muitos agricultores pobres acreditaram na promessa e iniciaram com entusiasmo seus trabalhos nas plantações.

João Inácio fugia agora das lembranças da luta que havia levado incluso o seu amigo João Saldanha a envolver-se na história. João Inácio tinha trabalhado junto do então futuro técnico da seleção brasileira de futebol, um dos militantes indicados pelo Partido Comunista Brasileiro para ajudar os posseiros a se organizarem. Saldanha levava aos camponeses desde a assessoria jurídica necessária até táticas de luta armada de guerrilha para enfrentar os jagunços e policiais que protegiam a cobiça de fazendeiros.
Passados mais de viente anos em terras argentinas, o velho João Inácio Fagundes, ao que todos chamavam de “Facundo”, decide casar com uma colega de fábrica no bairro portenho de Barracas, e em 1951 nasce o primeiro filho, no Hospital Fernández de Palermo.
É claro que o primogénito de João Fagundes só podia se chamar Facundo; e não só levou a denominação no primeiro nome de batismo, mas também no sobrenome, que por obra e graça da ignorância do escrivão do Registro Civil da Calle Aráoz, a poucos metros do hospital, deixou de ser português e passou a ser totalmente criollo e castelhano.
Facundo Ramón Facundo, – filho do velho lutador Fagundes, nascido e criado no Paraná era um argentino completo, cheio de gírias portenhas nas falas, abusando do lunfardo local, e misturando-se na escola e nas peladas de futebol com a melange fina de napolitanos, filhos de galegos, netos de bascos e alguns poucos “cabecitas negras” recém-chegados do interior junto com o aluvião peronista começado seis anos antes, e na cola do enorme crescimento da classe operária.
                                                     
História e memória
– Para fazer a história mais curta e menos chata de ser contada, digamos que o Facundo, passou toda a sua infância e a adolescência animado pelos relatos do pai, detalhista ao descrever as lutas camponesas que havia vivido no Paraná brasileiro, e ao falar da sua amizade com o João Saldanha, e das duas ocasiões em que tinha se encontrado em Londrina e em São Paulo com o lendário Luis Carlos Prestes”, diz a tia Rosa enquanto esquenta a chaleira para o chimarrão.

– “O Facundo, filho do brasileiro Fagundes, viveu nos cortiços da Calle Aráoz, bem em frente ao Comité Evita, onde passava as tardes olhando para as filas de mulheres que iam pedir uma máquina de costurar, ou alguma outra ajuda que a esposa do presidente Perón lhes oferecia para que pudessem melhorar a vida de imigrantes pobres, ou de migrantes vindas do interior, igualmente ou ainda mais miseráveis que as estrangeiras”, acrescenta.

– “E foi assim como o Facundo, já com 16 anos, se vinculou aos velhos da Resistência Peronista, os que haviam lutado contra o golpe militar “gorila” que tirara Perón do governo em 1955 e arrancara todos os direitos trabalhistas e sociais conquistados pelos sindicatos ao longo de 10 anos”, diz a tia Rosa, traz o chimarrão e a chaleira e senta ao meu lado.

– “Passados uns poucos anos mais tarde, em 1975, e já comprometido na militância política com a agrupação peronista Guardia de Hierro, Facundo viaja a Córdoba de urgência. No meio do percurso, sem que se saibam os motivos, parece que recebe uma notícia inesperada, sofre um forte abalo emocional e entra em coma. Pouco se sabe sobre quanto tempo durou esse estado de inconsciência, mas alguns escritos do próprio Facundo, anos depois, contam tudo o que viveu na ocasião.
                                                                 

E continuavam, Marta e Pedro, no porão frio e na semipenumbra do fim da tarde, lendo e tentando entender os Cuadernos Lapridas que a tia lhes facilitara. E ao entrar na parte que copio a seguir, descobriram que quem escreveu esses textos, por sua vez estava lendo também outros cadernos, talvez mais antigos e confusos:

23 de abril de 2006, três e trinta e cinco da tarde

A viagem até Liniers e San Justo se estica por mais de uma hora e vinte por causa de um brutal engarrafamento na General Paz; o condutor sai pela Emilio Castro e Mosconi e, enquanto dribla o trânsito por Lomas del Mirador, aproveita para contar as suas dores de pai: que a filha casou muito jovem e já está querendo se separar, que assim não há dinheiro que chegue; mas eu me concentro na leitura. Ao pé da página do caderno Laprida, em letra menor, bastante apagada e quase ilegível, ainda se lê, embaixo de um recorte da revista Billiken:


Outro diabo

– “Todos os que vivemos aqui há anos, nos arredores do antigo loteamento, sabemos que o túnel escuro, longo, úmido e sem luz que passa por debaixo das vias da estação de trem do velho Ramos Mejía é uma das tantas entradas que comunicam ao inferno, sabia? – me dizia a tia Rosalba cada vez que a visitava, nos primeiros anos depois do meu retorno a Buenos Aires; e eu me lembrava que em um vale de Tras Las Sierras, em Córdoba, existem outras duas entradas famosas às cavernas do Mandinga, num desfiladeiro fundo e estreito, por onde passam as almas penadas dos índios comechingones que não quiseram render-se aos espanhóis, há mais de quatrocentos anos, e que se jogaram precipício abaixo, pelo desfiladeiro, com seus filhos nos braços, preferindo a morte à escravidão.
A febre está aumentando e as lembranças viram delírio; a enfermeira da meia-noite entra no quarto e controla meus sinais vitais.

Começo a sonhar e a febre me faz lembrar de uma caverna que vimos um dia com Victoriano, no meio da espessura do mato em La Falda, onde se perde toda orientação e o cerro parece igual em todas as direções. Vimos uma entrada secreta, oculta entre o mato emaranhado, cuidada por dois pumas ferozes. Fomos embora sem entrar, mas depois Chazarreta e Fuenzalida nos contaram que essa entrada leva a una caverna ampla e lúgubre, onde dança o Mandinga quando se celebram os sabás e orgias. As velhas e os anciãos se transformam em jovens, os enfermos saram, e a fealdade se cobre com a formosura.

Dizem que a Salamanca é o lugar onde o Supay ensina suas más artes às bruxas, que se juntam aí três vezes por semana, penso, enquanto minha tia Rosa começa a narrar a história do loteamento e das linhas da estação de trens de Ramos Mejía.

*Esta versão em português não é uma tradução do texto em espanhol. 
Continuará por capítulos, como sempre...

Javier Villanueva, Florianópolis, 10 de feveiro de 2017.

El Diablo Mundo, o ese infierno llamado amor

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Siempre trayendo hasta este Blog a los buenos autores que se expresan en lengua española y portuguesa, les regalo otra vez con las letras de la amiga Susana Díez De La Cortina. 
A disfrutarlo. (JV)
http://www.rondahuesca.es/2017/02/10/el-diablo-mundo-o-ese-infierno-llamado-amor/

El Diablo Mundo, o ese infierno llamado amor


Cuando, en medio de un temporal de mil demonios, venía yo en un tren con varias horas de retraso pensando en cómo los elementos pueden de improviso ponerse a bailar con el diablo para desbaratar los engreídos planes de los humanos, comprendí que lo que me había estado robando el sueño días atrás no era el nerviosismo de participar en el congreso “Voces de Mulleres”, que era el motivo de mi viaje, sino la inquietante relación entre el sanguinario pirata gallego Benito Soto Aboal, los trágicos amores del poeta romántico José Espronceda con Teresa Mancha y la deslumbrante poesía de “Los Diablos” del también gallego Salvador Mira: tres hombres rebeldes, de espíritu libérrimo, y una mujer que, seguramente, también lo fue, pero mereció únicamente ser tildada de casquivana por la sociedad de la época. Ni libre, ni liberal, sino casquivana, ya ven: las cosas de ser mujer… 
Pero volviendo a nuestros poetas: resulta que, pese a ser Espronceda uno de los mayores representantes del Romanticismo a nivel mundial por “El Diablo Mundo” (obra en la que está incluido el desgarrado “Canto a Teresa” del que ahora les hablaré), en nuestro país es sobre todo conocido por ese himno a la libertad que es su “Canción del pirata”, inspirada , según dicen, en la vida del desalmado Benito Soto , y cuyo estribillo seguramente recordarán ustedes haber recitado en la escuela:
Que es mi barco mi tesoro, 
que es mi Dios la libertad; 
mi ley, la fuerza y el viento; 
mi única patria, la mar.

A bordo de su navío “La Burla Negra”, el pirata nacido en Pontevedra en 1805 está considerado como el último demonio que asoló el Atlántico, con cuyo más famoso lema, «gato muerto no maúlla», fue siempre consecuente, por lo que, tras asesinar a tres de sus compañeros, se hizo de oro vendiendo las mercancías de sus abordajes en La Coruña, para ser finalmente, con sólo 24 años, apresado y ajusticiado en 1830 en Gibraltar, donde, tras proferir como último grito un estentóreo «¡Adiós a todos, la función ha terminado!», cuentan que le ahorcaron con tan poco tino, que le llegaban los pies al suelo, y tuvieron que cavar debajo para que muriera. Ya ven: las cosas de la justicia… 
En fin, tantos diablos en medio de una climatología endemoniada, con dos libros abiertos sobre la mesita del Alvia cuyos títulos eran “Los Diablos” y “El Diablo Mundo”, pues… da que pensar. Y a mí, ya ven, me dio por pensar en el amor: el de Espronceda y Teresa, que se habían conocido siendo miembros, ambos, del exilio liberal en Londres; que se habían enamorado sin remedio y que, algo más tarde, estando ya Teresa casada con un ricachón, se habían vuelto a encontrar en el otro exilio de París; y allí Espronceda, dejando a un par de amigos de centinelas, se las arregló para penetrar en la vivienda de su adorada Teresa, a quien creía perdida. 
Tras el rapto, episodio romántico por excelencia, el poeta se vio obligado a huir de nuevo, y se pierde un poco la pista de los amantes hasta que en 1832 reaparecen viviendo juntos de nuevo en París: él tenía 24 años por aquel entonces, y ella 19. En Madrid, vivieron en un piso cercano a la madre del poeta, quien volvió a ser desterrado en otras dos ocasiones. Tras el nacimiento en1834 de su hija Blanca, surgieron las primeras desavenencias, por las ausencias de Espronceda y sus actividades políticas, y Teresa, al parecer, terminó fugándose con un tal Don Alfonso a Valladolid, y aunque después Espronceda y Teresa se reconciliaron, vivieron un periodo tumultuoso, hasta que finalmente ella muere en 1939 de tuberculosis, antes de cumplir los 28 años.
El testimonio de testigos y biógrafos señala que Espronceda quiso estar junto al cadáver de su amada, pero no le quedó más remedio que acompañarla a través de la reja de la casa donde la velaban, y allí estuvo toda la noche, con la frente apoyada en los hierros. El entierro fue de caridad: tal suele ser el castigo de las casquivanas, por muy amadas que hayan sido en vida.
Espronceda no la olvidó, en los tres años que aun la sobrevivió; un año antes de fallecer por el garrotillo, le dedicó su “Canto a Teresa”, II de “El Diablo Mundo”, dolorido aprendizaje de su relación con ella y desahogo para su corazón, que está considerado la obra cumbre del romanticismo español, europeo e incluso universal. Mira, que es un escritor rabiosamente actual tanto en los temas como en los aspectos formales, me recuerda a mí mucho el espíritu desgarrado, fieramente independiente y apasionado hasta alcanzar temperaturas infernales de aquellos primeros escritores románticos, como Espronceda. Aquí van algunas estrofas del “Canto a Teresa” de este último, que del primero prometo contarles más en otro momento:
CANTO A TERESADescansa en paz
¡Bueno es el mundo, bueno, bueno, bueno!
Como de Dios al fin obra maestra,
por todas partes de delicias lleno,
de que Dios ama al hombre hermosa muestra;
¡paz a los hombres! ¡Gloria en las alturas!
¡Cantad en vuestra jaula, criaturas!
¿Por qué volvéis a la memoria mía,
tristes recuerdos del placer perdido,
a aumentar la ansiedad y la agonía
de este desierto corazón herido?
¡Ay!, que de aquellas horas de alegría
le quedó al corazón sólo un gemido,
y el llanto que al dolor los ojos niegan
lágrimas son de hiel que el alma anegan.
(…)
Mujer que amor en su ilusión figura,
mujer que nada dice a los sentidos,
ensueño de suavísima ternura,
eco que regaló nuestros oídos;
de amor la llama generosa y pura,
los goces dulces del amor cumplidos,
que engalana la rica fantasía,
goces que avaro el corazón ansía.
¡Ay!, aquella mujer, tan solo aquella,
tanto delirio a realizar alcanza,
y una mujer tan cándida y tan bella
es mentida ilusión de la esperanza:
es el alma que vívida destella
su luz al mundo cuando en él se lanza,
y el mundo con su magia y galanura
es espejo no más de su hermosura: 
es el amor que al mismo amor adora,
el que creó las Sílfides y Ondinas,
la sacra ninfa que bordando mora
debajo de las aguas cristalinas:
es el amor que recordando llora
las arboledas del edén divinas:
amor de allí arrancado, allí nacido,
que busca en vano aquí su bien perdido.
(…)
Aun parece, Teresa, que te veo
aérea como dorada mariposa,
ensueño delicioso del deseo,
sobre tallo gentil temprana rosa
del amor venturoso devaneo,
angélica, purísima y dichosa,
y oigo tu voz dulcísima, y respiro
tu aliento perfumado en tu suspiro.
(…)
Los años, ¡ay!, de la ilusión pasaron,
las dulces esperanzas que trajeron
con sus blancos ensueños se llevaron,
y el porvenir de oscuridad vistieron:
las rosas del amor se marchitaron,
las flores en abrojos convirtieron,
y de afán tanto y tan soñada gloria,
sólo quedó una tumba, una memoria.
(…)
¡Oh!, ¡cruel!, ¡muy cruel!…¡ay!, yo entretanto
dentro del pecho mi dolor oculto,
enjugo de mis párpados el llanto
y doy al mundo el exigido culto:
yo escondo con vergüenza mi quebranto,
mi propia pena con mi risa insulto,
y me divierto en arrancar del pecho
mi mismo corazón pedazos hecho. 
Gocemos, sí; la cristalina esfera
gira bañada en luz:¡bella es la vida!
¿Quién a parar alcanza la carrera
del mundo hermoso que al placer convida?
Brilla radiante el sol, la primavera
los campos pinta en la estación florida:
truéquese en risa mi dolor profundo…
que haya un cadáver más, ¿qué importa al mundo?


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

As tristes – e nefastas – histórias de López Rega e Bignone.



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As tristes – e nefastas – histórias de
López Rega e Bignone*


Pedro Sánchez não era o que chamaríamos de um “escritor de sucesso”. Havia parado de tentar publicar um romance que vinha escrevinhando durante os últimos nove anos quando, depois de seis ou sete apresentações em concursos literários viu que ninguém se interessava muito por aquele seu texto, justamente aquele que ele considerava o mais importante e definitivo da sua carreira.

De fato, Pedro já tinha escrito e publicado bastante: foram crônicas, contos, alguma poesia, e um par de mini-romances para a revista “O Novo Cruzeiro”, que fundara em 1994 com dois colegas do folheto cultural “ProHispam”, da qual tirava seus magros salários fixos. Pobres, mas garantidos e seguros salários quinzenais.

Pedro trabalhou também como cartunista, completando mais de 190 publicações em diversos jornais e revistas de São Paulo, Juiz de Fora, Santa Maria de Rio Grande do Sul, e Campinas, entre crônicas, contos, romances e quadrinhos.

E ainda escreveu para a televisão a série “Planeta das Mulheres”. Em 1998 escreveu sua primeira peça teatral, "Uma mulher desnuda ao sol", e com ela ganhou o Prêmio Camões Jovem.
Depois passou mais de dez anos opacos e abúlicos rabiscando no Blog Carpindo, onde reuniu suas crônicas, e chegou à marca de um milhão de visitantes. Mas, embora premiado, muito lido no seu blog, e autor de treze livros, Pedro Sánchez era consciente de que nunca passou – e provavelmente não passaria- de um escritor medíocre.

Na realidade, Pedro era um técnico formado aos 21 anos em meteorologia, que mais tarde foi administrador de empresas, professor particular de inglês e de datilografia primeiro e informática depois; e, nas horas vagas – que eram muitas–, um especialista em futebol brasileiro. Em síntese, um eclético total.

Nos últimos dois anos, deprimido pela rotina do trabalho e pelos sucessivos fracassos de crítica das suas obras, Pedro caiu numa depressão que o confinou durante meses a fio na frente das telas da Netflix, alternando apenas com as palavras cruzadas e os intermináveis quebra-cabeças. Enquanto isso, trabalhava como jornalista free-lancer, escrevendo sem nada de vontade algo de ficção adulta e juvenil por encomenda, e fazendo roteiros eventuais para o cinema, ou atuando como consultor naquele canal de TV mais conhecido – e o mais criticado- do país.

Foi nessas circunstâncias que conheceu Maria Luisa, que o abandonou repentinamente, alguns poucos meses e muitas conversas depois.
Maria Luisa e Pedro tiveram semanas de entusiasmo mútuo, gastando horas do dia e da noite em longos papos pelo telefone ou por e-mail. Falavam de literatura, é claro, e ele pensava que a seduzia com os seus conhecimentos superficiais de tudo, sobretudo da prosa anglo-saxã que tanto obsessionava a Borges, outro dos seus preferidos.
Maria Luisa insistia em não avançar no relacionamento, em não abrir espaços para o amor ou o sexo; tinha medo de ser magoada; ficava apavorada pelo medo de ser rejeitada, dizia. Falava dos sofrimentos com a mãe e o pai.

Mas foi ela quem finalmente o rejeitou, não sem antes abrir uma boa oportunidade para ele cair rendido aos seus pés e ela se revelar uma insensível sedutora. Maria Luisa o deixou de quatro – literalmente – depois de lhe oferecer os beijos, as carícias e o sexo mais delicioso que Pedro nunca tivesse imaginado na sua vida.

– Foi ridículo- disse o Pedro. – Um dia qualquer, semanas depois de nosso primeiro encontro, que durou três dias e duas noites, liguei para falar apenas um oi, e ela me disse que estava embarcando para São Paulo e passaria em Congonhas em um par de horas, rumo a Brasília.

Pedro largou tudo o que estava fazendo na sua salinha comercial em Guaianazes, e pegou dois ou três ônibus para chegar à zona sul de São Paulo, esquecendo dois clientes na sala de espera, em pleno expediente, a mais de 40 km de onde pensava encontrar a sua amada. A encontrou por fim para, depois de esperá-la durante meia hora, em menos de quinze minutos e café expresso mediante, separar-se com um longo beijo frio – da parte dela que o deixou sem chão.

– Nunca me senti tão pateta– repete Pedro, ainda lembrando da frieza repentina de Maria Luisa.
– Mas tudo tem uma compensação na vida, e nada acontece por acaso–; foi na saída de Congonhas, mais afundado na depressão ainda do que já havia estado nesses últimos meses que, distraído, Pedro quase derrubou uma mulher que entrava apressada ao hall principal do aeroporto carregando uns quatro ou cinco livros.

Caíram todos no chão e me apressei a levantá-los – diz Pedro, e nesse momento a minha vida mudou, pelo menos a minha vida literária, por completo.

Um dos livros espalhados no chão era o seu “O fusca amarelo”, um dos títulos menos conhecidos no mercado embora mais trabalho tivesse tido Pedro para escrever, editar e vender; outro dos seus fracassos literários, digamos.
Mas Marta – que era a desconhecida com a qual teve o desastrado encontro– reconheceu de imediato no rosto do trapalhão o escritor da foto na quarta capa de um dos livros caídos.

Com os olhos fixos na publicação ela disse, muito devagar:

– Mas...desculpa, você é...Pedro Sánchez, né?-
– Sim, eu...perdão pelo desastre, eu...-
– Gostei do seu livro. Sim, gostei muito. Posso fazer um par de perguntas? Está com tempo? – ofereceu um cartão, e Pedro soube que Marta era gerente da livraria do aeroporto e que o tempo parecia não ser seu problema.

Passaram outros cinco ou seis meses depois do encontro desastrado de Marta Rotondo e Pedro, até que o fracassado escrevinhador descobrisse o caminho das pedras que deveria estar traçado desde sempre para que ele, já entrando na idade mais madura – os 40 anos, que de fato são o início da velhice– pudesse por fim saborear a doçura do sucesso.

Tinham conversado sobre diversos temas, principalmente dos livros de Pedro e das suas várias tentativas de acertar com um bom romance, assim como dos seus fracassos sucessivos. Marta, porém, parecia querer algo mais do que conversas e o olhava com carinho crescente. Mas Pedro sempre desviava o olhar, até que numa das tantas tardes de conversas no café de Congonhas, ela fez um movimento de olhos que de imediato lembrou Pedro dos olhos esverdeados e tristes da já quase, quase, esquecida Maria Luisa.

E em seguida rememorou Pedro a chuva no telhado naquela madrugada  a última noite de amor, as gotas furando o forro e pingando quentes no seu peito enquanto Maria Luisa se mexia em cima dele, gemendo e fazendo imaginar que aquilo era amor e que, além de tudo, podia ser eterno.
Mas de repente, Marta disse algo que o tirou do fascínio e parou de sonhar acordado:

– Sabia? Minha tia Rosa, a espanhola, aquela que já te contei que escreveu vários livrinhos curtos contando suas memórias, era cunhada do Bruxo López Rega, o ministro argentino que mexia os fios da marionete Isabelita, a presidente dos anos 70– disse Marta, e Pedro lembrou da sua última tentativa de um texto abandonado e esquecido nas gavetas.

O nosso escrevinhador já tinha pesquisado durante meses e começado um longo texto sobre a vida e morte do Rasputin argentino. Havia preenchido mais de 400 páginas detalhando as manobras de um dos indivíduos mais nefastos da história latino-americana nas últimas décadas; tinha trabalhado duramente, até que outra ideia se atravessou no meio de todo o processo. Pedro começou a repensar todo o texto quando se focou na figura de um outro personagem da história recente da Argentina: o último chefe da ditadura genocida que foi implantada mediante um golpe militar em 1976. E foi ai que o projeto do texto tinha empacado.

O comentário de Marta o deixou atônito: aparecia de repente, do nada, uma nova chance de retomar as pesquisas. E era a livreira a que lhe oferecia essa oportunidade em bandeja de ouro:

– A minha tia era irmã da amante fiel do Bruxo; e também foi casada com um argentino, militante do peronismo que passóu da direita para a esquerda nos anos de 1970. Ela poderia te ajudar na tua pesquisa.
Foi assim que, revisando, semanas depois uma série de Cuadernos Laprida – marca famosa de cadernos argentinos das décadas de 1940 a 70– que a tia da Marta mantinha escondidos em dois caixotes no porão, Pedro descobriu alguns textos interessantes que passo a copiar agora:


Capítulo 1


João Inácio Fagundes saiu da balsa que o tinha tirado de Foz do Iguaçu, e subiu as escadas de madeira que o levariam para longe da guerrilha de Porecatu, no norte do estado do Paraná.

Passou pela revista de documentos da Gendarmería Nacional e entrou na Argentina pela minúscula vila de Puerto Iguazú. Era o inverno de 1953 e começava seu longo exílio.

A história de João Inácio e seu compromisso com a guerrilha camponesa havia começado anos atrás, quando milhares de famílias se fixaram na região de Porucatu, na fronteira do Paraná com Santa Catarina, entusiasmadas pela promessa do governador Manoel Ribas, na realidade um mero interventor nomeado por Getúlio Vargas, presidente da República naquela época.

Para colonizar uma área de mais de 120 mil hectares, Ribas havia anunciado que as famílias que se estabelecessem para desenvolver a agricultura iriam adquirir as propriedades, seis anos depois, a preços muito acessíveis. Muitos agricultores pobres acreditaram na promessa e iniciaram com entusiasmo seus trabalhos nas plantações.

João Inácio fugia agora das lembranças da luta que havia levado incluso o seu amigo João Saldanha a envolver-se na história. João Inácio tinha trabalhado junto do então futuro técnico da seleção brasileira de futebol, um dos militantes indicados pelo Partido Comunista Brasileiro para ajudar os posseiros a se organizarem. Saldanha levava aos camponeses desde a assessoria jurídica necessária até táticas de luta armada de guerrilha para enfrentar os jagunços e policiais que protegiam a cobiça de fazendeiros.
Passados mais de vinte anos em terras argentinas, o velho João Inácio Fagundes, ao que todos chamavam de “Facundo”, decide casar com uma colega de fábrica no bairro portenho de Barracas, e em 1951 nasce o primeiro filho, no Hospital Fernández de Palermo.

É claro que o primogênito de João Fagundes só podia se chamar Facundo; e não só levou a denominação no primeiro nome de batismo, mas também no sobrenome, que por obra e graça da ignorância do escrivão do Registro Civil da Calle Aráoz, a poucos metros do hospital, deixou de ser português e passou a ser totalmente criollo e castelhano.
Facundo Ramón Facundo, – filho do velho lutador Fagundes, nascido e criado no Paraná era um argentino completo, cheio de gírias portenhas nas falas, abusando do lunfardo local, e misturando-se na escola e nas peladas de futebol com a melange fina de napolitanos, filhos de galegos, netos de bascos e alguns poucos “cabecitas negras” recém-chegados do interior junto com o aluvião peronista começado seis anos antes, e na cola do enorme crescimento da classe operária.

                                                     
*Esta versão em português não é uma tradução do texto em espanhol. 
Continuará por capítulos, como sempre...

Javier Villanueva, Florianópolis, janeiro de 2017.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Trump y el neoliberalismo

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Em setembro de 2016 publiquei um post com um texto de Alberto Alemán, que chamei Desejo, Fato Maldito e revolução. Esse artigo - uma reportagem ao psicanalista da revolução e do desejo- não era uma defesa do kirchnerismo na Argentina, nem do Lulo-petismo no Brasil. Tratava-se apenas de uma opinião muito crítica do liberalismo (para que acrescentar "neo"?) mais selvagem, aquele que alguns chamam de "anarco-liberalismo", ou "liberalismo-lumpem", pois pode ser comandado tanto por um playboy simplório, ou por um velho político caipira com estilo dos anos de 1960 ou 1970.
E aquela reportagem nos falava ainda do "Fato maldito", que na Argentina do século XX era o peronismo e hoje é o kirchnerismo, assim como no Brasil moderno temos o Lulismo e o PT, renascendo sempre das cinzas do  velho espantalho trabalhista getulista dos anos 50 e 60 do século passado. 

Vale a pena ler também esta nova análise, focada agora em Trump e na virada "populista" da direita Tea party nos EUA. (JV)

Trump y el neoliberalismo
Por Jorge Alemán *

La llegada de Donald Trump a la Casa Blanca ha dejado al mundo entero perplejo. Durante los meses previos a las elecciones, la inmensa mayoría de politólogos, analistas o periodistas afirmaban que era absolutamente imposible que ganara las elecciones. De alguna manera, hemos comprobado que cuando dijo la frase “podría disparar gente en la quinta avenida y no perdería ningún voto” tenía algo de razón.
La confusión en torno a la figura de Trump ha estado presente durante toda la campaña y continúa ahora que ya es Presidente. Los medios europeos no han dudado en caracterizarlo como un líder populista, probablemente en un nuevo intento de desprestigiar el término. El proyecto político que representa el Presidente de Estados Unidos sólo puede denominarse como populismo si lo entendemos como una forma demagógica de expresión política al más puro estilo del “reality” televisivo. Sin embargo, cualquiera que quiera acercarse al análisis de las experiencias populistas de forma honesta, debería evitar la confusión entre populismo y demagogia, así como analizar la obra de Ernesto Laclau y Chantal Mouffe.
En este sentido, partiendo del concepto de populismo de Laclau, hay que señalar que la sociedad está organizada materialmente por el lenguaje, que es la condición primera del vínculo social, pero está constituido de tal modo que, si bien configura la realidad, no puede nombrar la totalidad de la realidad. A aquello que el lenguaje no puede nombrar, lo denominamos lo “real”. Se trata de un agujero de la realidad que solo puede ser contorneado por un “Límite”, al que podemos denominar de forma incompleta o inconsistente: hegemonía, construcción de Pueblo, en suma, populismo.
Asimismo, para Laclau, en la estructura del lenguaje está implícito el populismo, puesto que siempre habrá antagonismos que no pueden cerrarse en una totalidad. Las brechas y fallas que contaminan los vínculos sociales y derivan en antagonismos irreductibles solo pueden ser abordados por una lógica de articulación hegemónica que dé nombre a esas fallas, que asuma la brecha y, además, se haga cargo políticamente de los antagonismos que instituyen lo social. A partir de este análisis, mi posición es que el populismo no se extiende por igual a izquierda y derecha. Las condiciones de heterogeneidad, la diferencia, la dislocación o la frontera antagónica, sólo existen en el interior de una lógica emancipatoria de nuevo cuño que asume que la realidad no puede ser totalizada. Es una emancipación inconclusa y abierta que nada tiene que ver con el fascismo, ni con las técnicas retóricas de la demagogia. Hay que recordar que estas prácticas se sostienen habitualmente en la conquista de una identidad sin fallas, brechas ni agujeros, amenazadas por las “impurezas o excesos de lo extranjero”.
Podemos ver claramente como en el discurso de Trump o Lepen no existe una verdadera lógica emancipatoria que asuma las brechas y las fallas, así como la heterogeneidad propia de la articulación hegemónica, sino que estamos ante una construcción discursiva que pretende defender una identidad (supuestamente atacada), frente al otro que la pone en peligro. Incluso no dudan en utilizar la victimización para defender esta identidad (recuperar la verdadera identidad francesa que está amenazada por los extranjeros o hacer grande América de nuevo porque los demás se han beneficiado a su costa).
Por todo esto, podemos afirmar que se utiliza erróneamente el término populista para no designarlo como lo que realmente es: la versión neofascista del neoliberalismo. Donald Trump no representa el fin del neoliberalismo, sino más bien la constatación definitiva de que el neoliberalismo ya no necesita la democracia para legitimarse. El nuevo Presidente de los Estados Unidos no va a poner en cuestión las bases económicas del Capitalismo -tiene un gabinete de billionarios, suman más de 35.000 millones de dólares de patrimonio- lo que va a poner en riesgo son los elementos básicos de la democracia, que ya estaban bastante cuestionados.
Así lo podemos constatar en sus primeras medidas: la recuperación del oleoducto Keystone XL que perjudica a la población indígena y al medio ambiente, el ataque a los derechos reproductivos de las mujeres y la disputa sobre el muro con México. Además, en su primera entrevista como Presidente, no dudó en justificar la tortura. En este contexto, ¿cómo es posible que algunos sectores de la izquierda “se alegren” con la victoria de Trump? ¿Realmente creen que un multimillonario va a suponer algún tipo de freno a la expansión neoliberal?
Algunos podrán justificarlo desde la lógica de “cuanto peor, mejor”, suponiendo que después de Trump llegará el verdadero proyecto revolucionario. Sin embargo, en el camino se ha perdido la oportunidad de que Bernie Sanders llegara a la Casa Blanca y existe el riesgo de que el Presidente Trump juegue siempre la carta del enemigo exterior para evitar cualquier tipo de articulación hegemónica en su contra. En definitiva, nos queda el “pesimismo de la razón, optimismo de la voluntad” gramsciano, pero es necesario partir de un análisis adecuado de lo que significa el fenómeno Trump para poder articular una respuesta política.



* Psicoanalista y escritor argentino, nacido en BsAs, en 1951.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Julio Cortázar. Graffites em tempos de opressão.

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De Julio Cortázar
Graffiti
A Antonio Tàpies


Tantas coisas que começam e talvez terminam como um jogo, suponho que te fazia graça encontrar o desenho ao lado do teu, atribuíste-o a uma casualidade ou a um capricho e só na segunda vez te deste conta de que era intencional e então olhaste-o com atenção, inclusive voltaste mais tarde para olhá-lo de novo, tomando as precauções de sempre: a rua em seu momento mais solitário, nenhuma viatura nas esquinas próximas, se aproximar com indiferença e nunca olhar o grafite de frente mas do outro lado da calçada ou em diagonal, fingindo interesse pela vitrine ao lado, indo-te logo em seguida.


Teu próprio jogo havia começado por tédio, não era realmente um protesto contra o estado de coisas na cidade, o toque de recolher, a proibição ameaçadora de colar cartazes ou escrever nas muros. Simplesmente te divertia fazer desenhos com giz de cores (não gostavas do termo grafite, muito de crítico de arte) e de quando em quando voltar para vê-los e até com um pouco de sorte assistir à chegada do caminhão municipal e aos insultos inúteis dos empregados enquanto apagavam os desenhos. Pouco importava que não fossem desenhos políticos, a proibição abrangia qualquer coisa, e se algum menino tivesse se atrevido a desenhar uma casa ou um cachorro, eles o teriam igualmente apagado entre palavrões e ameaças. Na cidade já não se sabia muito de que lado estava verdadeiramente o medo; talvez por isso te divertia dominar o teu e de tempos em tempos eleger o lugar e a hora propícios para fazer um desenho.

Nunca havias corrido perigo porque sabias escolher bem, e no tempo transcorrido até a chegada dos caminhões de limpeza se abria para ti algo como um espaço mais limpo onde quase cabia a esperança. Olhando de longe teu desenho podias ver a gente que dava uma olhada ao passar, sem dúvida ninguém se detia mas ninguém deixava de olhar o desenho, às vezes uma rápida composição abstrata em duas cores, um pefil de pássaro ou duas figuras enlaçadas. Uma só vez escreveste uma frase, com giz preto: A mim também me dói. Não durou duas horas, e desta vez a polícia em pessoa a fez desaparecer. Depois somente continuaste fazendo desenhos.

Quando o outro apareceu ao lado do teu quase tiveste medo, de chofre o perigo voltava em dobro, alguém se animava como tu a divertir-se à beira do cárcere ou algo pior, e esse alguém além de tudo era uma mulher. Tu mesmo não podias prová-lo, havia algo de diferente e melhor que as provas mais convincentes: um traço, uma predileção por tons quentes, uma aura. E como andavas sozinho imaginavas uma mulher por compensação; tu a admiravas, tiveste medo por ela, esperaste que fosse a única vez, quase te denunciaste quando ela voltou a desenhar ao lado de outro desenho teu, uma vontade de rir, de ficar ali parado como se os policias fossem cegos ou idiotas.

Começou um tempo diferente, mais sigiloso, mais belo e ao mesmo tempo ameaçante. Descuidando do teu trabalho saías a toda hora com a esperança de surpreendê-la, escolheste para teus desenhos essas ruas que podias percorrer rapidamente num único itinerário; voltaste à aurora, ao anoitecer, às três da manhã. Foi um tempo de contradição insuportável, a decepção de encontrar um novo desenho dela junto a algum dos teus e a rua vazia, e a de não encontrar nada e sentir a rua ainda mais vazia. Uma noite viste seu primeiro desenho sozinho; havia-o feito com gizes vermelhos e azuis numa porta de garagem, aproveitando a textura das madeiras carcomidas e as cabeças dos pregos. Era mais do que nunca ela, o traço, as cores, mas além disso sentiste que este desenho era como um pedido ou uma interrogação, uma maneira de te chamar. Voltaste à aurora, depois que as patrulhas rarearam no seu surdo escoamento, e no resto da porta desenhaste uma rápida paisagem com velas e quebra-mares; ao olhá-lo bem diria-se um jogo de linhas ao acaso, mas ela sabia olhá-lo. Esta noite escapaste por pouco de uma ronda da polícia, no seu apartamento bebeste gim e mais gim e falaste com ela, disseste tudo o que vinha à boca como outro desenho sonoro, outro porto com velas, imaginaste-a morena e silenciosa, escolheste para ela lábios e seios, quiseste-a um pouco.

Quase em seguida te ocorreu que ela buscaria uma resposta, que voltaria ao desenho dela como voltavas agora aos teus, e mesmo que o perigo era cada vez maior depois dos atentados no mercado atreveste a aproximar-te da garagem, a rondar pela manhã, a tomar intermináveis cervejas no café da esquina. Era absurdo porque certamente ela não pararia ao ver teu desenho, qualquer uma das mulheres que iam e vinham podiam ser ela. Ao amanhecer do segundo dia escolheste um paredão cinza e desenhaste um triângulo branco rodeado de manchas como folhas de carvalho; do mesmo café da esquina podias ver o paredão (já haviam limpado a porta da garagem e uma patrulha voltava e voltava raivosa), ao anoitecer te distanciaste um pouco mas escolhendo diferentes pontos de vista, deslocando-te de um lugar a outro, comprando qualquer coisa nas lojas para não chamar muito a atenção. Já era noite cerrada quando ouviste a sirene e os projetores te varreram os olhos. Havia um confuso amontoamento junto ao paredão, correste contra toda sensatez e só o acaso te ajudaste, um automóvel virando a esquina e freando ao ver a viatura te protegia e viste a luta, um cabelo preto puxado por mãos enluvadas, os pontapés e os alaridos, a visão entrecortada de uma calça azul antes que a jogassem no carro e a levassem.

Muito depois (era horrível tremer assim, era horrível pensar que isso acontecera por culpa do teu desenho no paredão cinza), te misturaste com as outras pessoas e pudeste ver um esboço em azul, os traços desse laranja que era como seu nome ou sua boca, ela toda nesse desenho truncado que os policiais haviam borrado antes de levá-la. Tinha ficado o bastante para compreender que ela havia desejado responder ao teu triângulo com uma outra figura, um círculo ou quem sabe uma espiral, uma forma cheia e formosa, algo como um sim um sempre ou um agora.

Sabias muito bem, te sobraria tempo para imaginar os detalhes do que estaria se passando na prisão central; na cidade tudo isso transpirava pouco a pouco, as pessoas estavam a par do destino dos prisioneiros, e se às vezes voltavam a ver alguns deles, preferiam não os ver como a maioria das pessoas se perdiam nesse silêncio que ninguém se atrevia quebrar. Já sabia e muito, essa noite o gim não te ajudaria mais que morder-te os punhos, a pisotear os gizes de cor antes de te perder na embriaguez e no pranto.

Sim, mas os dias passavam e já não sabias viver de outra maneira. Voltaste a abandonar o teu trabalho para dar voltas nas ruas, olhar furtivamente as paredes e as portas onde ela e tu haviam desenhado. Tudo limpo, tudo claro; nada, nem sequer uma flor desenhada pela inocência de um colegial que rouba um giz na classe e não resiste ao prazer de usá-lo. Tampouco pudeste resistir, e um mês depois te levantaste ao amanhecer e voltaste à rua da garagem. Não havia patrulhas, as paredes estavam perfeitamente limpas; um gato te olhou cauteloso em cima de um portão quando sacaste os gizes e no mesmo lugar, ali onde ela havia deixado seu desenho, encheste a madeira de um grito verde, uma labareda vermelha de reconhecimento e de amor, envolveste teu desenho com uma oval que era também tua boca e a dela e a esperança. Os passos na esquina te lançaram a uma corrida silenciosa, ao refúgio de uma pilha de caixotes vazios; um bêbado vacilante se aproximou titubeante, quis pisar no gato e caiu aos pés do teu desenho. Partiste lentamente, já seguro, e com o primeiro sol dormiste como não houveste dormido em muito tempo.

Essa mesma manhã olhaste de longe: ainda não o haviam apagado. Voltaste ao meio-dia: quase inconcebivelmente continuava ali. A agitação na periferia (havias escutado os noticiários) afastava as patrulhas urbanas de sua rotina; ao anoitecer voltaste a vê-lo como tanta gente o havia visto ao longo do dia. Esperaste até as três da manhã para regressar, a rua estava vazia e negra. De longe descobriste o outro desenho, somente tu poderia tê-lo distinguido tão pequeno no alto à esquerda do teu. Aproximaste com algo que era sede e horror ao mesmo tempo, viste a oval laranja e as manchas violeta de onde parecia saltar um rosto tumefato, um olho pendente, uma boca consumida por socos. Já sei, já sei, mas que outra coisa poderia te desenhar? Que mensagem teria sentido agora? De qualquer maneira teria que te dizer adeus e te pedir para continuar. Algo teria que te deixar antes de me voltar a meu refúgio onde não havia espelho algum, somente um espaço onde me esconder até o fim na mais completa obscurdidade, recordando tantas coisas e às vezes, assim como havia imaginado tua vida, imaginando que fazias outros desenhos, que saías à noite para fazer outros desenhos.