quinta-feira, 30 de junho de 2011

Hoje acordei de bode


As tais três gotinhas pra dormir melhor são tão pequenas que quase nem enxergo; podem cair duas ou quatro. São para acalmar um pouco o incômodo do túnel do carpo, coisinha à toa, uma coceguinha besta, um adormecimento na mão direita. Na esquerda já passou, coisa pouca.

Acordei de bode, sim, mas nem sei por quê. É uma pequena chatice, que nem a dormência na mão, quando o dedo do meio fica parecendo uma linguiça calabresa, só uma sensação ruim, mais nada. Algo assim de chatinho, suave, denso, mas sem cor nem forma de dor...só um bode.

Pra piorar, quis ligar pra editora. Era urgente, mais um na listinha de nove itens para resolver; coisa pouca também, mas tudo urgente: ligar para o Pedro das pedras, o João do portão, corrigir a revisão dos três livrinhos de inglês para entregar os DVDs antes de 10 de julho (detalhe: a programação visual ainda não chegou da editora, mas isso não atrasa a data final, claro); desbloquear o celular do meu filho do meio, ligar para reclamar da anuidade do Visa, imprimir os outros três livros de espanhol que acompanham a série infantil, levantar o cocô dos cachorros do jardim, e levar a cachorra ao veterinário porque latiu a noite toda e não deixou ninguém dormir. E se der tempo, mandar lavar o carro da livraria que depois da última feira ficou imundo, mas o cara do posto se recusa a molhar as mãos no inverno. Pode pegar gripe e já está com mais de 60; tadinho, poderia ser fatal. Ele tem razão.

É bode mesmo: o celular estava perdido e a hora de ligar pra minha editora estava correndo; quinze minutos depois de procurar em meio aos livros, revistas de história, provas misturadas das três edições em inglês às do espanhol, nada, o celú tinha sido tragado pela terra. Que bode! Chamo a Cássia, a moça da limpeza:    —Onde escondeu o celular dessa vez, Cássia?...—Chô ver, estava junto com os óculos, que deixe na banheira?, não, nas roupas do Gabriel?...perai. Depois de outros vinte minutos, achamos o celular no micro-ondas, encima dele por sorte, e não dentro.

Ligo urgente para a editora; mas acaba a bateria; —Cadê o carregador Cássia?...—Perai, na hora de dar de comer ao canário...não, para! tá aqui. Ligo e nada, ocupado: “Librería Española agradece su llamada. Ud. es muy importante para nosotros, no cuelgue, pip, pip”. Igual, em espanhol ou em português, o bode segue firme. Atendem: —Olá seu Xavier (meu nome é Javier, mas vai lá, topo qualquer coisa) —Cadê a minha editora?. —Acabou de sair pra gráfica, seu Xavi (essa moça está tomando confiança de mais da conta!).

Melhor sair e tomar um cafezinho com leite na padaria, quem sabe passa o bode. Bato a cabeça na última samambaia que sobrou em todo São Paulo, a da minha casa. Antes havia samambaia em tudo quanto era canto: no banheiro, na varanda, na copa, na lavanderia; agora não, sumiram. Mas a da minha casa estava ai, bem na hora em que eu saia, batendo no meio da minha testa dura de argentino de Córdoba.

E o bode não passa. Fui até a padaria, parece que estou à Paris, ninguém sabe mais o que é uma média, nem café de coador de manga, em copo de vidro então nem pensar. Lá na França ninguém toma café em copo de vidro, deve ser demodée la, à Paris, portanto, aqui na Serra também é, e cafona por cima.

Achei! Achei o Axé, quer dizer; isso de ser editor é bom: na hora do maior bode você acha um autor legal, simpático, professor talentoso e divertido que espanta o bode, mas por pouco tempo.

Porque depois de achar o Aché, achei o motivo do bode: puxa vida, já sei, é uma dor pequena, sem motivo, à toa, coisa pouca. Mais não, eu queria mesmo ver um par de amigos da editora lá em casa, e receber os novos amigos, o Sérgio e o editor dele, gente fina e “del campo ajuera”, como diria Victoriano Unzaga, o que garante que a festa vai ser boa e a conversa ao pé de todos os ouvidos, melhor ainda. Mas não sei se vai dar. As escaramuças norte-sul atingiram em pleno a pizzaiada. Ir ao sul não posso –motivos filias me impedem. Os do sul acham o norte longínquo; o que fazer, ô dúvida, ô bode!

JV

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