quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Caupolicán, Lautaro, e os Treze da Fama

Raúl, o irmão mais novo de Manuca chegou tarde ao hospital, ou pelo menos a mim me pareceu que o quarto já estava escuro fazia tempo, e só entrava a luz difusa do corredor à mina direita; Raquel e Graciela conversavam em voz baixa, e a visita do meu primo as deixou mais alegres, e em pouco tempo começaram a rir como não se ouvia no meu quarto nas varias semanas da minha internação.

- Conhecem a história da Guerra do Arauco, que aconteceu nos anos de 1540 no Chile? - perguntou. As duas moram na Patagônia, e conhecem muitos chilenos que não podiam ter deixado de falar de seus feitos patrióticos, e a história da Araucária é algo que as minhas irmãs deviam conhecer, mas não disseram nada e se dispuseram a escutar o que Raúl queria contar.

- Faz algumas noites que venho pensando em escrever este relato, depois de ter lido “Inés, ¡Alma mía!” de Isabel Allende, que comprei o mês passado numa viagem relâmpago a Buenos Aires. Vamos ver se vocês gostam -.

A voz de Raúl fica teatral quando começa a nos contar a gesta de Juan Gomez; é sua segunda visita no que vai da semana, mas já me dei conta de que sua irmã o convenceu com as idéias de Graciela e do médico da guarda noturna, que dizem que eu não estou morto e nem padeço num coma profundo; já se deu conta, com toda a sua perspicácia, que posso ouvir seu relato, e me dá a impressão de que está tentando chegar bem ao fundo da minha consciência com cada frase da sua história Juan Gómez:

- “Não vou tomar banho todos os dias, como os selvagens... não sou índio para me meter na água dos rios e do mar, não!! - delirava Juan Gómez enquanto, por ironias da vida, jazia com seu corpo submerso, até a metade do peito, nas águas geladas e pantanosas de uma triste lagoa ao sul de Bío-Bío.

Caía a noite e as feridas nas pernas e os braços doíam, mas nem a febre, nem a dor atroz provocada pelas flechadas e as lanças, nem o frio da água quase congelada, nem o medo de deslizar até o fundo do pântano que antes já havia engolido alguns de seus camaradas; eram tão fortes como o terror que lhe inspirava estar sozinho e desarmado a mercê dos mapuches que Lautaro – quem, do ponto de vista dos conquistadores, era o traidor a Valdivia  - havia organizado em disciplinados pelotões e batalhões de homens encouraçados em grossas armaduras e capacetes de couro, todos montados em cima de muito bem adestrados cavalos.

E o terror de Juan se transformava em pânico ao notar que, a menos de cem passos da lagoa, e à medida que as sombras se tornavam da maior negrura possível, mais claramente se escutavam os passos lentos, cautelosamente medidos, da tropa de Lautaro, à procura dos soldados espanhóis sobreviventes do massacre do forte.

A armadura, uma couraça de ferro quase crua, forjada pela mão e o fogo do frade que anos mais tarde seria bispo de Santiago, lhe raspava a pele e a deixava em carne viva, pela fricção constante durante as longas horas de batalha; acontece que a pobreza extrema da conquista do Chile lhes tinha tirado até as íntimas prendas de algodão ou de lã, costuradas e remendadas dezenas de vezes. E o que dizer das feridas em carne viva, expostas agora à densidade barrenta das águas do pântano.

Três longos passos, muito lentos; e depois um quarto passo, a menos de vinte metros, segundo podia calcular. Com a certeza de que o guerreiro que se aproximava ainda não o tinha visto, e sentindo-se protegido pelas sombras da noite sem lua e sem estrelas, Juan esticou o braço que lhe sobrava fora do lodo e arrancou com cuidado um canudo comprido, uma taquara oca, que colocou na boca antes de esconder a cabeça atrás de uns matos ralos, e até os olhos, dentro do barro.

Quase vinte horas antes, ainda no forte Puren, o comandante Alonso Corona tinha compreendido que o alçamento mapuche era de forte gravidade, e tinha pedido mais reforços a Santiago. Nesses dias tensos que procederam à tragédia, tinha chegado a Puren, viajando desde Concepción e com o peregrino propósito de procurar ouro, Don Juan Gómez de Almagro, e Corona tinha lhe oferecido, sem mais nem menos, o controle do forte.

Alguns dias depois da chegada de Juan, se apresentou um índio; na verdade, a pesar de parecer mais um “yanacona” que um mapuche, era um nativo chileno, e, além disso, era um dos tantos espiões de Lautaro, como ele mesmo tinha sido na casa do próprio Valdivia; o mapuche, que depois de observar em detalhe as defesas do forte, foi descoberto e capturado, maliciosamente informou aos espanhóis, que acharam ter arrancado a informação como confissão na tortura, que o forte de Puren seria atacado.

É claro que o dado era verdadeiro, e culminou em um desenlace bélico fulminante, que realmente ocorreu em 14 de dezembro de 1553; nesse dia centenas de mapuches, que os espanhóis preferiram imaginar mais tarde que haviam sido milhares, se lançaram sobre a praça forte, e foram rejeitados por cargas de cavalaria a mandado de Gómez de Almagro.

Uma nova carga espanhola, lançada algumas horas depois, os obrigou a fugir dos mapuches em completa desordem, e isto convenceu os espanhóis de ter obtido uma contundente vitória, sem demora e como era de rigor, comunicaram ao chefe da conquista do Chile, Valdivia, que se encontrava em Quilacoya e que de imediato ordenou a Gómez de Almagro que o encontrasse em Tucapel em 25 de dezembro para começar a reconstruir o forte que tinha sido incendiado.

Mas o gênio militar de Lautaro já tinha previsto outro destino para Juan Gómez e seu chefe. Ao capturar outro índio espião e depois de torturá-lo, soube Juan Gómez que Puren seria novamente atacado por milhares de mapuches.

Bastou a Juan olhar pro horizonte em todas as direções para ver, ameaçadoras, as grandes nuvens empoeiradas que confirmavam o que dizia o prisioneiro. Mas a ordem dada por Valdivia desde Quilacoya devia ser cumprida. E Juan Gómez, depois de deixar uma guarnição de espanhóis não muito bem armados e um grupo de índios yanaconas, encabeçou o pequeno destacamento de 13 ginetes, e, em formação fechada, marcharam em direção de Tucapel; mal chegaram e se deram conta de que tinha viajado apenas para ser testemunhas da pavorosa derrota sofrida por seus compatriotas, na qual foi morto - cruelmente, segundo alguns - o conquistador do Chile, dom Pedro de Valdivia.

Desolados com a tremenda tristeza da derrota, Juan Gómez decidiu descansar no destruído forte de Tucapel, mas isso não foi possível, porque dos quatro pontos cardeais apareceram esquadrões mapuches; a longa batalha que se sucedeu então foi desigual e desesperada, e durou até cair a noite.

As sombras lhes permitiram a Juan e seus 13 ginetes escapar de volta a Puren, mas ao longo do caminho morreram a maioria de seus soldados.

No final, como comprovaram os longos anos da guerra do Arauco, a astucia mapuche e o gênio militar de seu chefe, Lautaro, eram a contrapartida da persistência e o tesão dos conquistadores; e nessa batalha de engenhos, a que teve que enfrentar Juan entre Tucapel e Puren pelo menos, quem saiu vencedor, por salvar a própria vida milagrosamente, seminu, semi-congelado pelo gelo do pântano, e com um canudinho de taquara na boca febril, para poder respirar enquanto morria de medo dos mapuches foi Juan, conhecido pela história como Juan Gómez de Almagro, o espanhol que salvou sua vida graças a que os índios tenham perdido seu rastro depois de matar seu cavalo.

Juan foi encontrado ferido e nu, e ao ser levado a Puren, em seu dramático retorno pode ver dezenas de mulheres, anciões e crianças mapuches que ainda moviam galhos e esfregavam ramos contra o solo, produzindo uma grande poeira. Os mapuches tinham conseguido enganar os espanhóis, fazendo-os acreditar, com um simples truque, que aquele nevoeiro era levantado por uns míticos 30.000 guerreiros que atacariam o forte de Puren até o natal! E esse medo os impediu de auxiliar o chefe Pedro de Valdivia que lutava solitário em Tucapel.

A sombra mítica de Caupolicán pairava sobre a nação mapuche e os espanhóis não conseguiam fugir da força do mito. Teria existido realmente Caupolián? ou era uma mistificação da figura de Lautaro?

-Juan salvou sua vida sem poder ajudar seu chefe, mas sua façanha o levou à história, junto com seus soldados mortos, como “os 14 da fama” - completou Raúl seu relato, e Graciela e Raquel festejaram com barulhentos aplausos, até que chegou o médico de plantão e pediu que não fizessem tanto barulho.


Leia mais em: "Crónicas de Utopías y Amores, de Demonios y Héroes de la Patria" (JV, 2006)

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