sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Creio que eu também a vendi algumas vezes

São Paulo, 11 de outubro de 2005

Você sabe muito bem, Sr. Villanueva, sem dúvida alguma, e não tente me enganar; você sabe que venderia sua alma ao diabo para voltar a ter 28 anos de novo. Mas quando chega a hora da verdade, o momento tão esperado, você se lembra que talvez já a tenha negociado antes, em alguma outra ocasião; e é por isso que agora, mesmo ainda querendo vendê-la ao homenzinho que apareceu do nada em sua casa com uma estranha garrafa, já não pode mais. E desesperado, você, Villanueva, revira os armários, abre todas as gavetas do closet e vira de ponta-cabeça inclusive a biblioteca, para ver se, por acaso, encontra alguma coisa com a qual possa voltar a ter 28 de novo.


Pensa que já não tem nada a oferecer-lhe e se pergunta que outra coisa pode querer aquele homenzinho cinza, o mesmo que já tinha lhe comprado a alma na outra ocasião. Por isso procura desesperadamente em todos os lugares, e repete para si mesmo que quer encontrar algo, alguma coisa de valor, o que seja, o que for, enquanto continua fuçando nos armários, revirando as gavetas, e dando voltas e mais voltas na pilha de livros antigos da biblioteca; mas continua sem encontrar nada de algum valor que se possa vender. O que seja! Qualquer coisa, o que seja, o que seja, para voltar a ter 28 anos!


E se encontra com um caderninho velho, um Laprida de capa dura, de cor creme, ou verde claro; e dentro do caderno, colada com goma arábica, a poesia ingênua que lhe escreveu a sua primeira namorada; aparece também o anel de formando, de puro ouro 18 quilates que lhe presenteou a sua mãe; uma radiografia de quando lhe operaram o nariz, que quebrou com treze anos, jogando futebol em Córdoba; a pilha de discos que Diego gravou para você (o Julito, lembra?) antes de ir para exílio na Itália, e vai colocando tudo no monte de coisas que poderia vender em troca de voltar a ter 28 anos de novo. E coloca tudo nesse monte porque, mesmo que tenham importado naquela época, agora já não interessam tanto. Algumas dessas coisas, com exceção do anel, já não passam de bugigangas. Só importa agora voltar a ter 28 anos. Qualquer coisa de valor, o que seja, qualquer coisa, o que seja, o que for!. E Javier se pergunta a quem podem interessar essas coisas, que nem a ele mesmo já lhe interessa muito; e por isso continua bisbilhotando nos armários, dentro das gavetas, até debaixo da cama, nas escrivaninhas da mulher e das crianças, e continua juntando tudo no montão das coisas que pode vender, para voltar a ter 28 anos. E lê no Laprida:


“Pouco tempo depois do enterro do meu velho, cruzei na rua, por coincidência, com o Dr. Cordero, que tinha sido seu médico de cabeceira. Tomamos um café na confeitaria La Paz, e o velho médico acabou me contando que em 1976, ou talvez um ano antes, ele tinha dito ao meu pai que tinha um rim muito afetado e que também devia começar a se cuidar de verdade da diabete. A resposta do meu velho tinha sido que entre passar oito ou dez anos sem açúcar, ou sobreviver a um ou dois, levando a vida que ele realmente gostava, ele preferia a segunda opção. Ou seja, que morreria como havia vivido, tal e qual, com as botas postas.

Conhecendo o meu pai bastante bem, o médico não se surpreendeu com que ele tenha me ocultado aquele momento de sua vida e as recomendações que tinha feito ao velho. A pesar do rim afetado, a diabete e os pulmões que começavam também a ficar ruins, meu pai mostrava um enganoso ótimo aspecto, e uma figura trapaceiramente saudável, e durou ainda mais algumas décadas.

Arrumando os livros e a correspondência na oficina do velho, alguns meses depois de sua morte, e tendo que decidir o que ia guardar ou jogar fora, dei de cara com nove cadernos Laprida, escondidos na estante mais alta da biblioteca. Eu sabia que entre 1967 e 1969 o meu pai tinha tentado escrever uns contos, dentro de uma obra maior – mais atrevida, pode-se dizer - uma novela de ficção; ou melhor dito, uma proto-novela. Os cadernos eram os mesmos que eu tinha visto naquela época.

Ainda me lembro bem da noite em que meu velho me disse que estava começando a escrever um livro; e também de outra tarde em que veio me pedir alguns conselhos literários, e ao passar, lhe comentei sobre os cadernos; me disse que já estava tentando avançar em uma segunda obra. Uns meses depois dessa breve conversa, ao passar pelo velho café da esquina da estação de trens de Ramos Mejía o vi em uma mesinha, escrevendo; meu velho estava encurvado, com o olhar perdido e ao mesmo tempo concentrado em seu manuscrito, enquanto o galego Leiva, o brigão, o observava e lhe dava um tapinha nas costas com a cumplicidade de um velho camarada de lutas.

Meu pai tinha conseguido realizar algumas poucas façanhas, pouco reconhecida também, talvez por serem coletivas, feitos de toda uma geração, em sua longa vida; como todos, teve sonhos e diversos pesadelos; sobreviveu aos violentos anos 70 e à perda de suas ilusões; teve uma memória, venceu o esquecimento, se juntou aos heróis e canalhas de seu século e do anterior, o dos pró-homens da América; derrotou a morte pelo menos duas vezes, uma, ao sair da Argentina e encontrar uma longa trégua; a segunda, outros tantos anos depois, ao vencer o coma e sair do estado de latência pelo qual passou durante quase um ano em Córdoba. Só não conseguiu realizar um sonho: escrever sua segunda novela; na verdade a primeira não havia interessado a nenhum editor e os leitores críticos que a analisaram não conseguiram convencê-lo de que não havia nenhuma qualidade literária na arquitetura da obra, e que os textos eram tremendamente confusos. Os nove cadernos Laprida continham as memórias de uma longa saga familiar, relatadas por dois avôs meio sábios e fantasmagóricos e multidões de heróis e caudilhos gloriosos e contraditórios que nunca conseguiram levantar em pé a pátria grande que sonharam. Nove Lapridas cheios de pesadelos, sonhos e frustrações".

Dizem os vizinhos da estação de Ramos Mejía que o Diabo, depois de tanta enrolação do Javier, tanto blablá desconexo, por fim não levou nada e, furibundo, se lançou pra dentro de uma fenda e desapareceu entre as rochas que suportam os túneis por debaixo da linha do trem. Pode ser tudo mentira do Negro Unzaga que me contou a historia, mas é bem provável que isto tenha acontecido.

Leia mais em: "Crónicas de Utopías y Amores, de Demonios y Héroes de la Patria" (JV, 2006)

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