quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Terceiro Trilho


A imagem pode conter: trem e atividades ao ar livre

O terceiro trilho

Por Dardo Castro

Juan deixou o serviço na cabeceira da linha e pegou o trem de volta para casa, apenas um quarto em um cortiço miserável no bairro de Parque Patricios. Quando saiu da estação, chovia como se fosse nos trópicos.

Santiago o estava esperando, tomando chimarrão e lendo. Apenas o cumprimentou com um gesto. Cada um deles zombava das preocupações do outro, quando voltavam com algum atraso. Mas era certo, se um deles não voltava, o outro tinha que voar.

Antes de vir para Buenos Aires tinham se encontrado de vez em quando na cidade de Rosário, onde Santiago trabalhou por um tempo. A estrada de ferro tinha uma casa na qual pernoitavam os motoristas dos trens de longa distância. Juan dormia lá quando parava para descansar em Rosario. Em seguida, eles foram  tocar violão, cozinhar e falar de mulheres que tinham amado, as que não tinham sido capazes de amar e as que gostariam de amar algum dia.

Os motoristas que estavam de passagem por Rosario frequentavan os "peringundines", as casas de diversões proibidas de uma cidade que já era famosa pelos seus bordéis e cabarés desde o início do século XX.

Você tem que ir ver a "Rita do fogo", uma bailarina lendária que é a alegria da classe trabalhadora. Canta como um corvo e dança como um urso, mas os peões têm outras sensibilidades.

Compreendido.

Juan tinha uma voz de baixo, um pouco tremida, e imitava vagamente o Edmundo Rivero. Na verdade, uma das suas canções favoritas era Jacinto Chiclana, uma milonga de Rivero sobriamente redigida capturando o drama de um poema de Borges e a densa melodia de Piazzolla. Santiago tinha perdido esse disco em uma das suas muitas mudanças.

Você sabe o que Borges disse a Rivero a primeira vez que a ouviu?:

- Você já me contou isso uma centena de vezes! - .

Rivero começou cantando "A Don Nicanor Paredes", com o Borges sentado na primeira fila com sua bengala de cego. Quando a apresentação terminou, Borges perguntou a Edmundo Rivero como é que ele se atrevia a cantar suas milongas.

- Porque eu vivi isso, Dom Jorge, a mim ninguém veio me contar - disse Rivero.

- Você está certo, a mim sim, a mim me contaram - disse-lhe Borges.

É como se o estivesse ouvindo, o velho era arrogante e autoritário, mas essa consciência implacável de si mesmo desconcertava e, finalmente, Borges parecia até modesto.

Algum tempo depois, Santiago se reencontrara novamente em Buenos Aires com Juan, onde ele estava fazendo o curso de motorista e deixou as longas e sacrificadas viagens em todo o país. Mas no final, e no fundo, os trens elétricos suburbanos pareciam de brinquedo em comparação com a carga puxada pelas locomotivas movidas a diesel de grande porte.

- Como é que você vai compará-los com as Toshibinhas de 12 cilindros da Alco V, essas heróicas máquinas canadenses que viajavam centenas de milhares de quilômetros sem uma falha! - disse o Juan.

- Você está sendo nostálgico, agora você vai dizer que o vapor era melhor - retrucou Santiago.

- Não, não as máquinas, mas os maquinistas... os companheiros do meu velho pai levavam as máquinas de vapor através dos Andes para o Chile e a Bolívia, enfrentando os ventos da cordilheira gelada e a vastidão das estepes da Patagônia.

- Merda, agora você ficou épico - disse Santiago.

- É que o que escrevi, Negro. É que quando eu escrevo, sempre puxo para esse lado - .

- Muito bom, aluno Juancito, retire-se e volte amanhã com seu pai ou responsável. Para aí, meu! Essas locomotivas queimaram metade das florestas atrás do "quebracho" para alimentar as caldeiras, além das que costumavam usar para fazer dormentes e, já que estamos no assunto, o que os machados dos ingleses derrubaram para extrair o tanino.
A pátria desmatada.

Após o curso e de se reincorporar ao serviço, Juan passou três meses sem receber seu salário. Um dia lhe pagaram tudo de uma vez e voltou com três cuecas novas, um quilo de carne para milanesas, um romance de Chandler, uma história em quadrinhos do Corto Maltese e um livro de poemas de Gelman.

- Você é um baita investidor, mas um tanto quanto repetitivo. O Chandler e o Hugo Prat você já leu - falou Santiago.

- Pois é; mas a polícia deve tê-los em alguma delegacia - esclareceu Juan.

Tinha uma cama de solteiro e dois colchões. À noite, eles colocavam um no chão, onde dormia Santiago, que disse que para ele era mais difícil se sentir confortável na cama. Naquela noite, a chuva era tão intensa que o teto vazou em vários lugares e o chão começou a inundar. Eles tiveram que desligar a luz, porque escorria um fio d'água que atravessava a lâmpada do teto. Sentados de lado na cama, riam-se amargamente de seu destino.

- O que mais vai acontecer? - .

- Nada, vai passar! - .

- A chuva ou a ditadura?

- As duas coisas. Tudo passa. Um dia, os milicos vão embora, os presos vão sair, vão voltar novamente os camaradas que estão fora, e você poderá retornar para o seu povoadinho, ver os seus velhos e tomar um porre com seus amigos- .

- Muito provavelmente, o mais certo é...quem sabe! - .

E assim, do nada, sem aviso prévio, Juan caiu com a notícia - Sofia chegou hoje, amanhã vamos nos encontrar. Você quer vê-la? - .

- Não. Melhor não, ela não deve me ver. É um risco para mim e para ela - falou Santiago.

Gringa teimosa. Um mês atrás, Juan havia dito que ela queria vir. - Para quê quer vir? Ela é louca, diga-lhe para ficar onde está, mesmo que seja do Médicos Sem Fronteira, os milicos vão arrebentá-la se for pega - .

Sofía era a neta de um inglês que veio quando os britânicos fizeram a estrada de ferro da Argentina. - Um bastardo cockney. A família falava que o inglês tinha a missão de dedurar e trair ativistas. Um dia, minha mãe teve um ataque de nostalgia de cozido, um dos pratos favoritos do meu avô, e preparou a carne com batatas, cozidos em um saco de linho. Eca! Uma porcaria insípida - lembra Santiago que lhe contava Sofía.

- Seu avô veio para a Argentina quando trouxeram a estrutura da Estação Retiro, não é? - perguntava Santiago.

- Não. Os britânicos a fizeram para Nova Delhi, mas o navio que a trazia desmontada passou antes por Buenos Aires. Os ingleses, que não perdem nenhum negócio, acabaram vendendo a estação ao governo argentino, e por aqui mesmo ficou. Meu avô veio muito mais tarde. Eu não sou tão velha assim, hein? - .

- Eu gosto da estação. Eu sempre olho para cima quando chego à plataforma, um verdadeiro monumento ao capitalismo industrial. E você se envolveu com esse ferroviário subversivo do Juan só para resgatar a honra da família? - provoca Santiago e Sofía faz careta de menina que ficou de mal.

Eu acho que eu não sei, pensa Santiago.

Na manhã seguinte, as crianças estão brincando no corredor molhado do cortiço. A maioria eram filhos de bolivianos, peruanos e paraguaios. Desde a primeira vez que dirigiu um comboio para La Quiaca, o Juan se sensibilizava com os olhos das crianças Kolla.

- Igual que tibetaninhos. Andinos e tibetanos capaz de vir da mesma "guasca", quer dizer, são "farinha do mesmo saco". O que você me diz? - pergunta o Juan.

Tudo e nada; pode ser também.

Juan tinha que entrar no serviço, e Santiago foi para um encontro com o pai de um companheiro preso que estava esperando em uma plataforma do metrô. Estava com um grandalhão de aspecto desalinhado, que era um repórter austríaco carregado de medo e de suspeitas. Juntos, embarcaram no metrô e se engajaram em uma conversa fragmentada porque Santiago estava mudando constantemente de trem para evitar serem seguidos. O jornalista queria informações sobre a resistência dos sindicatos à ditadura, mas Santiago só lhe deu informações tão vagas e genéricas que o gringo ficou claramente decepcionado. Por fim, decidiu dar-lhe uma cópia do jornal do grêmio, "O Terceiro Trilho", cujo nome aludia precisamente ao terceiro trilho ferroviário, o que transporta a eletricidade. O austríaco guardou-o rapidamente e se despediu deixando-lhe um cartão com seu nome e o de um jornal que a Santiago lhe pareceu ininteligível.

Sofía chegou ao bar ainda mais bonita de como Juan se lembrava na despedida, dois anos antes, quando ela foi embora para a Espanha. Quando ela entrou no bar, por fim o abandonou a estranha sensação de irrealidade que o tinha invadido nos dias anteriores à chegada de Sofía, mas não consegiu transferir ao seu abraço a intensidade que lhe queimava no peito.

- Então você vai ficar. Não vai servir de nada. O que pode fazer você e um pouco mais de gente? - argumentou Santiago.

Sofia estava ao lado dele no quarto do hotel. Ele estava prestes a dizer a ela que o sindicato dos maquinistas se chamava "La Fraternidad", um nome de origem anarquista, e que a rotina não tinha tomado o seu significado. De alguma forma essa tradição reforçou a sua determinação. Alguns, uns poucos - e Sofia estava certa sobre isso - determinados a defender o que restava. Mas pensou que falar isso soaria grandiloquente
demais.

Sofía se perguntou se ele tinha vindo apenas para convencê-la a ir embora. De alguma forma ele sabia que alguém estava esperando por ela na Espanha, o que depois o conmoveu ainda mais, pela sua generosidade. Talvez fosse essa generosidade, a principal razão pela que ele tanto a amava.

- E o que você me conta sobre Santiago? - disse ela.

- Eu não vejo há algum tempo, mas eu sei que está tudo bem - desconversou Juan.

Sofía ignorou a mentira e tirou um pacote de sua bolsa. - Continua cozinhando, eu acho. Eu lhe trouxe açafrão. Diga-lhe que enviei um grande beijo, diga que eu espero, que espero pelos dois.

Ele tomou o trem na estação de Retiro e desceu em Victoria. Caminhou até o local do comitê interno de delegados, onde o esperavam os seus companheiros. Mas mal conseguia libertar-se da memória imediata de Sofia e se concentrar na discussão.

As sabotagens tinham se tornado cada vez mais perigosas e a intervenção militar do grêmio fazia cada vez mais difícil e perigosa a prática, extremando os controles para preveni-los. Mas não conseguiam. Os anéis de metal que os motoristas colocavam nos trilhos deixavam loucas as cancelas automáticas e o tráfego dos trens ficavam numa confusão infernal.

Agora os milicos forçavam os motoristas para explicar os atrasos por escrito, mas como tinham por norma respeitar rigorosamente os regulamentos, a circulação dos trens suburbanos era interrompida a qualquer sinal de insegurança. Como a redação dos relatórios demoravam horas, então Juan já tinha deixado escrito um modelo que usava para tudo, mudando apenas as circunstâncias.

Os militares ficavam desesperados tentando entender o funcionamento interno, sempre querendo impor uma ordem burocrática, ainda mais paralisante do que as regras da empresa.

Juan analisou longamente o rosto dos seus companheiros, um por um, como se estivesse dizendo adeus. Ele pensou nos caídos, presos e mortos; imaginou um rosto para representar todos eles. E era sempre o cabeção Suffi, arrancado à força do trem em Salta, a 1500 km de Buenos Aires. Tinha ouvido dizer que quando os militares iam procurá-los nos seus empregos, muitos trabalhadores das fábricas se agarravam à máquina como numa reafirmação última da sua condição de trabalhadores.

O Cabeção devia pensar que a sua máquina iria protegê-lo, e até parecia que se gabava de ser o seu proprietário. E assim, os dias iam passando, entre esforços, até então sem sucesso, de que a direção lhes desse dois dias de folga depois de acontecer algum acidente.

Com esses caras do exército agora há mais suicídios e não se pode continuar trabalhando depois de um cristão se jogar na frente da sua máquina. Quando vejo alguém na beira da estrada de ferro, você nunca sabe se ele vai atirar na sua frente.

E de repente, a discussão da tão adiada greve foi retomada por alguns motoristas que queriam estragar o campeonato Copa do Mundo da ditadura.

- Se pararmos, todos vão saber o que está acontecendo na Argentina -.

- Parar agora é uma loucura, vão acabar com a gente. Os outros sindicatos, a União Ferroviária e os sinaleiros, não vão ficar conosco porque não são tão organizados como nós e são muito mais vulneráveis ​​à repressão -.

- Se paramos, outros companheiros vão somar-se e participar da resistência organizada. Além disso, a ditadura já começou a enfraquecer, dizem os colegas que estão fora do país -.

Sofía está lá fora. Como será que é uma vida tão longe deste país ocupado? Caminhar tranquilamente pelas ruas com ela, ter uma casa e um quintal com plantas para por água nas manhãs de domingo.

Mas, certamente, Sofia já não deve estar com ele, por mais que o amava não podia voltar. Ou podia?

O debate não conseguiu ser fechado essa noite e eles se despediram na estação.

No dia seguinte, Juan foi para o serviço bem cedo. Mal pisou na plataforma, ele soube que estava perdido, mas foi surpreendido pela discrição com que vários homens o cercaram.

- Sofia, não sofra por mim, esqueça de mim, é assim que tinham que acontecer as coisas, uma hora tinha que chegar -.

Era quase noite quando tomou o trem de Paris a Madrid. No longo percurso mal conseguiu dormir. Ele vivia o exílio como algo temporário, e voltar para a Europa agora lhe permitia uma calma suave, demorada, quase hedonista.

- Eu te ofereço minhas vigílias nos trens sem sono que atravessam as noites boreais entre cidades invisíveis -.

- Eu ofereço a você a vasta solidão da minha derrota, a alegria frágil com a que vivo esta experiência, e sobretudo, a memória dos companheiros que amei até a morte -.

Santiago desceu em Madrid pensando numa mulher que já não coincidiria com as nítidas lembrancas que guardava na memória. Mas Sofía era a mesma: grandes olhos cinzentos olhando para ele, buscando-o; o mesmo desafio inocente dos seus quadris. Como se ainda estivesse andando pelo refeitório universitário, tirando o detalhe de que já haviam passado quase duas décadas de tudo isso.

Todas as prevenções acabaram de uma vez com o o primeiro, interminável abraço.

Sofía tinha tido dois filhos, Santiago de um ano, e Juan, de quatro. Ainda não entendo como é que ele pode se salvar. Alguém conseguiu ver que os paramilitares o estavam sequestrando. O comitê executivo da Fraternidad agiu rapidamente, e no dia seguinte havia telegramas de dezenas de sindicatos ferroviários ao redor do mundo, e das federações dos trabalhadores dos transportes exigindo sua liberdade. Além disso, os militares temiam uma greve de trens no meio da Copa do Mundo. Os milicos enviaram vários suboficiais da Escola Técnica General Lemos para que os motoristas das locomotivas os ensinassem a dirigir, mas eles subiam por uma porta e os outros se mandavam pela outra. No final desistiram.

- Como ele está agora? - perguntou Sofía.

- Demitiu-se quando privatizaram a estrada de ferro. Ele está feliz em sua cidade, trabalhando no município, encarregado de um trabalho comunitário que não conheço muito bem. Mas você já sabia disso, se você já viu uma vez o Juan, não viu? - disse Santiago.

- Sim. Uma vez, quando eu levei o Santiaguito para conhecer seu pai. Desde então, Santi vai todo ano para vê-lo, mas ele nunca veio -.

- E...me diga: por que você colocou o nome Santiago no teu filho? Você pensou que não me veria novamente? - disse Santiago, meio acabrunhado, talvez tristão.

- Não. Não é homenagem, não. Apesar do medo insuportável de todos esses anos, eu sempre senti, Deus sabe por que, que com vocês não era para acontecer - nada de mal.

Mas Santiago pensava que sim, que tinha sido uma homenagem. Ele se sentiu desconfortável e mudou de assunto.

- Quando por fim ele foi solto, Juan não podia acreditar no barulho que os trabalhadores das ferrovias de lugares tão distantes tinham feito para amolecer a ditadura - disse Santiago, só pra mudar de tema.

- Olha só, debaixo de todas essas siglas do mundo inteiro, há maquinistas como nós!; como será que são as paisagens? E suas máquinas? Certamente, mais modernas e rápidas que as nossas - .

- Juan gostou do nome da empresa ferroviária francesa, "Chemins de Fer". Nós não sabíamos como elas soam aos franceses, mas achei muito poético. Imagine, caminhos de ferro, legal!

Mas se o caminho de ferro, ou ferrovia, a palavra é quase o mesmo, só que quando os ingleses a trouxeram, a tradução foi feita no sentido inverso da ferrovia. Teria que ser "via de ferro", certo? - disse Santiago. E afastou o olhar de Sofía, e do seu passado.

Autor: Dardo Castro. Buenos Aires, 15/6/2006
Versão brasileira: JV, 2011.

Um comentário: