sábado, 5 de maio de 2012

A escadinha na garagem.



A síndica veio cedo acordá-lo para que visse "um probleminha, aparentemente sério". Apesar da hora -6:50 da manhã- Luciano teve tempo e lucidez para refletir sobre a contradição entre o diminutivo -probleminha- e o grau de seriedade do evento que levava a dona Manola a tocar a campainha nesse horário estrambólico.

- A caixa d'água de reserva em caso de incêndio, lá embaixo no subsolo, está vazando, seu Luciano - disse ela, com o melhor soriso que as brumas da quase madrugada lhe permitiam enxergar no rosto envelhecido da síndica.

-Oká, já já me visto e desço - disse ele, cobrindo o pijama azul de flanela listrada com o travesseiro que não tinha deixado de segurar firme, entre ele e a porta entreaberta, e do qual a dona Manola não tinha conseguido tirar os olhos enquanto falava.

Fechou a porta, se vistiu e desceu. A garagem, no subsolo de um predio de três andares, bem arrumado e sem elevador, fica entre o metrô Santana e a estação Jardim São Paulo. Luciano olha, se espreguiça e calcula que a piscina de 18 m2 por dois de profundidade -umas duas toneladas de água de reserva ligada à bomba submersa-  só  poderia ser acionada em caso de incêndio se uns três ou quatro homens muito ágeis, desenrolassem a mangueira em tempo récorde de não mais de dois minutos. Isso, sempre e quando a energia não falhasse e os bicos semi-enferrujados soltassem o jato com precissão.

Nessas especulações estava quando viu, a uns quarenta centímetros da casa de máquinas, uma portinhola escondida, pintada da mesma côr cinza escura das paredes da garagem-porão. Abriu-a com cuidado e viu aparecer um espaço mal iluminado, de um metro quadrado e não mais de metro e sessenta de altura. No fundo do misterioso recinto, do qual a dona Manoela nunca tinha falado, a ponta de uma escadinha metálica, como as de piscina, vertical, iluminada por reflexos brancos que pareciam vir de mais de baixo ainda.

- Sabe, Javier? é estranho, mas não tive coragem de ir enfrente. Fechei a portinhola, verifiquei a pressão da bomba, constatei que não havia vazamentos na caixa de incêndio e subi- me conta, muito sério, Luciano.

- Dois meses depois, passada uma noite de ventos e chuvas alucinantes, sacodi o medo remanescente dos pesadelos que havia experimentado e desci outra vez até a garagem - esfrega os olhos, mexe nos cabelos, apalpa as olheiras fundas de várias noites de mal sono, e segue o relato.
- Abri a porta metálica com dificuldade; alguém parecia tê-la empurrado com força, e entrei no quartinho de pouco mais de um metro e meio cúbico. Vi que a escadinha metálica dava espaço suficiente para alguém magro como eu, e notei que cada um dos degraus ia iluminando-se de baixo para cima, cada vez mais intensamente até chegar num chão claro, uns três metros pra baixo - me conta Luciano.

- Desci, sem muita convicção, mas seguro de que estava fazendo alguma besteira e iria me arrepender logo. Ainda assim, não poderia deixar de fazê-lo e desta vez fui adiante. Desci até tocar o chão, de enormes cerâmicas lisas e brilhosas. Uma fita amarela estreita, longa e áspera, começava uns poucos passos mais a frente. E assim que sai de atrás da coluna que escondia pelas costas a escadinha pela qual tinha descido, comecei a ouvir o murmurio de vozes crescente.

Luciano andou ainda mais uns duzentos metros pelo corredor, cada vez mais iluminado e envolvido na conversa de dezenas de pessoas ainda invisíveis, sempre seguindo a linha amarela do chão. Quando o murmúrio e a luminosidade chegaram ao seu máximo grau, quase tropeçou com um rapaz, todo vestido de preto, que o olhou com desconfiança. 

- Só então me dei conta que estava na ponta sul da estação Jardim São Paulo do metrô. O guarda pareceu avançar na minha direção, mas uma jovenzinha se aproximou para fazer uma pergunta e ele se afastou sem me olhar novamente. 

Subi no primeiro vagão e sai por uma das escadarias da Praça da Sé. Caminhei uma meia hora pelas ruas do centro de São Paulo, ainda sem entender direito como foi que apareci no metrô.

Continuará.
JV, relato inspirado numa das tantas histórias de Luciano Barrionuevo. 
São Paulo, 5 de maio de 2012.

Um comentário:

  1. MUITO BOM ME VISITE NO RECANTO DAS LETRAS (DEIDSON) ¡SALUDOS DO MEXICO!!!!!!!!

    ResponderExcluir