sábado, 11 de agosto de 2012

Seguindo as pegadas de um escravista




Klaus Kinski, imagem do filme de Werner Herzog "Cobra Verde", Alemania-Ghana, 1987.

Lendo mais uma vez sobre a filmografia do cineasta Herzog –o mesmo de “Fitzcarraldo” que já apresentei neste blog um par de vezes- me interessou um outro personagem histórico biografado por ele. É o Francisco Félix de Sousa, quem aparentemente, segundo contam, nasceu em Salvador, Bahia, um dia 4 de outubro de 1754, e morreu em Ouidah, Benim, em 8 de maio de 1849. Com certeza foi o maior traficante de escravos brasileiro e “Chachá”, algo assim como um vice-rei, da atual cidade de Uidá –na grafia portuguesa- no pequeno país africano de Benim.
Trata-se de uma figura histórica muito controvertida, tanto pela soma do poder e das riquezas que acumulou, quanto pelas origens, sempre duvidosas ou incertas.

Seus muitos descendentes na África gravaram na lápide do seu túmulo a data de nascimento de 4 de outubro de 1754. Já outros, porém, documentam que ele nasceu em 1771, e que era filho de um português traficante de escravos e que a mãe era uma escrava; e que aos 17 anos foi alforriado.
Seus descendentes o retratam hoje como sendo muito branco e até louro. Mas o mais provável é que tenha sido de um tipo mulato ou mestiço indefinido.

Mas voltando ao nosso conhecido Werneg Herzog, digamos que se inspirou na figura do escravocrata para criar o personagem do filme “Cabo Verde” de 1987.
Às vezes os escritores de romances e os cineastas exageram na dose ao misturar ficção com realidade histórica. E também é verdade que é assim mesmo que se criam ou recriam as figuras míticas, aquelas que não possuem um atestado de “verdade histórica” que as sustente. E eu, pessoalmente –e também modestamente- gosto dessas misturas e assim escrevo às vezes meus contos. E sei que é difícil dosar a “verdade histórica” e mesclar com prudência a ficção literária. Mas que os romancistas e diretores de cinema exageram às vezes, isso é um fato. 
Assim ocorreu com a figura do Francisco Félix de Sousa, o autêntico vice-rei de Ouidah (ou Uidá), e quem passou de todas as medidas nessa dosagem da fantasia com o realismo foi Bruce Chatwin no seu livro “O vice-rei de Ouidah”, de 1980. Trata-se de um romance que impregna o fascínio pelo poder mítico do negreiro brasileiro que virou um dos homens mais ricos do seu tempo, lá pelos anos 30 do século XIX. O vice-rei de Ouidah era um verdadeiro exagero de ambivalências e contradições entre as duas culturas em que se movia, entre os dois continentes –a do Brasil americano e o Benim africano e escravista-. E isso foi exatamente o que também atraiu ao cineasta Herzog do filme “Cabo verde”. 
Mas, insisto, o romancista Chatwin pegou pesado: conta ele que Francisco Félix de Souza morreu louco em 1857, que foi enterrado numa barrica de rum e fecharam suas narinas com “torunas de capoc”, uma espécie de tampão de seiva. 

Félix de Souza era, sim, de um caráter de fera selvagem, mas nem por isso menos compassivo se fosse necessário; alardeava de possuir gostos refinados e era capaz de desembarcar um piano de cauda em meio de uma terrível borrasca marítima em Ouidah, mas também podia mostrar um olímpico desprezo pela indumentária, numa cidade colonial abrasada pelo calor e a malária. Não faz lembrar um pouco o "Fitzcarraldo" de Herzog?

A verdade é que Félix de Souza não era nem de longe o loiro biruta encarnado em “Cobra Verde” pelo ator preferido de Herzog, o seu “melhor inimigo” Klaus Kinski. Mas é documentado e certo que chegou a África em 1788 e que morreu em 11849, aos 94 anos, deixando centenas de herdeiros: 80 filhos e 53 filhas, duzentos e dez netos e bisnetos e 12 mil escravos. Apenas 63 entre seus filhos foram reconhecidos, mas criaram uma estirpe que chegou a ter, incluso, anuências eclesiásticas para permitir casamentos entre primos e até irmãos, tios e sobrinhas, de tal modo de santificar uma saga de milhares de descendentes –no Brasil e na África- imbricada na poligamia e a consanguinidade.

Continuará. 
Javier Villanueva, São Paulo, 11 de agosto de 2012.

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