segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O primeiro beijo do Pepito **





Pepito não tinha aprendido a beijar até os 33 ou 34 anos. Foi o que ele me disse, e não sei se era verdade, mas na época ele já tinha estado casado e criava dois filhos.

E nadinha de aprender a beijar.
O meu amigo só soube o que eram beijos -molhados, de língua, suaves e levemente doces- depois que aprendeu a desejar apenas uma única mulher.

Não foi fácil -me conta Pepito- mas aprendeu direitinho, apenas num par de anos e pronto. E já não parou mais de beijar.

Acontece que até então ele só tinha beijado -rapidamente e sem muita vontade- umas quantas bocas rebeldes, insurretas. Tão revoltosas e insurgentes eram as bocas que o Pepito tinha se acostumado a beijar, que acabaram fugindo todas, uma atrás da outra, e nem a lembrança ficou. 
Ele só soube me dizer que o beijo das mapuches e diaguitas era mais rápido e sem compromisso ainda que o das tehuelches. E nada mais.

O primeiro beijo de verdade do Pepito, então, foi depois dos seus 33 ou 34 anos. E nessa ocasião também começou a aprender, devagarzinho, a desejar todos os dias a mesma mulher. Ficou sabendo, aos poucos, que  é necessário seguir alguns passos simples, como colocar o trabalho em terceiro ou quarto lugar na vida e, bem no meio das preocupações, o cuidado criterioso das galinhas e dos cachorros. 

Segundo me disse, é importante deixar o dinheiro em quinto ou sexto, as pequenas delicias do cotidiano em segundo, e a família em terceiro lugar. E além do mais, é urgente promover diversas ações revolucionarias, como por exemplo encerrar a conta no banco e mandar à merda o gerente, usar sempre os mesmos sapatos, comer mexericas ao pé de uma planta própria, e sobretudo, dar um valor decisivo à preguiça, ao ócio criativo.

Mas é fundamental, em primeiro lugar, e se você quer beijar bem e gostoso, manter sempre uma sadia obsessão pelas curvas vertiginosas da mesma mulher, concentrar-se nas pernas longas e as nádegas arredondadas; pensar alternativamente em triângulos isósceles e seios mornos e pequenos, mas não tanto,  seios justos, justo do tamanho da mão do beijoqueiro.
A receita é simples, insiste em me contar o Pepito: para aprender a beijar de língua, numa boca úmida e rebelde, e manter-se fiel na busca das velhas Utopias, a fórmula é essa; os ingredientes são ao gosto do sonhador. 
E ainda repete: aplique-se com uma certa moderação entre os 30 e os 40 anos, com obstinação entre os 50 e os 60, com fervor, determinação, dedicação e precisão daí em diante.

Beijar bem e desejar todos os dias a mesma mulher é fácil. 
E esse pode ser também um bom começo de 2013!

Javier Villanueva. São Paulo, no último dia do ano que não acabou.



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