quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Num não tão longínquo 7 de fevereiro de 1994





Os aniversários da família em fevereiro são escassos, só dois na realidade; o da Turquita, a irmã caçula, e o do Nando, o caçula dos filhos homens. 
O Nando ainda se salvou de ser o último de todos, mas aproveitou bastante os sete anos de carência, e ainda por cima pintou e bordou em companhia do irmão mais velho imediato, o Gabo -quem depois de ter sido por sua vez benjamim e filho único, encontrou no nascimento do Nando uma oportunidade única para exercer as delícias do mandão mais velho-.

Hernando, que esse é o nome difícil e hispanicamente sonoro do Nando, lutou desde cedo com as armas do bilinguismo, sentindo na pele a dor e a delícia de ser meio brasileiro e meio argentino.

-Hernando, com H, seu tonto- era uma das primeiras frases bem articuladas do Nando, na sua luta inglória para fazer entender que seu nome é apenas parecido com o Fernando, mas só que com H.

-Não, não é Hernani- insistia o querubim, cachos dourados se mexendo de raiva.

-Nem Hernández, isso é um sobrenome! É Hernando, com H!!- sublinhava, na batalha inútil para explicar a diferença sutil entre um primeiro nome e um nome de família.
E a língua se dobrava entre os dentes, anunciando o soco certeiro que estava prestes a desferir naquele que eventualmente teimasse em chamá-lo de Fernando, Ernani (com ou sem H) ou Hernández.

Passadas as primeiras batalhas pela identidade do nome com H -e logo depois de vencer as escaramuças linguísticas da compreensão auditiva e as habilidades orais entre uma avó argentina, outra brasileira e uma assistente com sérios problemas de dicção em qualquer idioma- Hernando dedicou-se em tempo integral ao seu hobby preferido: aprontar.

Sim, porque se bem seu atual aspecto calmo e ponderado não permitem imaginar semelhante passado, o Nando foi uma das crianças mais irrequietas, bagunceiras e brincalhonas que tivessem passado pelas memórias da família, mesmo nas enormes extensões continentais da tribo, que nasce nas encostas dos Andes, em Catamarca, verte suas engenhosidades e teimosias pelas Salinas até Córdoba, e depois de uma longa estrada até a Patagônia, sobe feliz, curiosa e persistente até chegar ao planalto paulistano pelo cume da Cantareira.

Sentar candidamente no colo do avô materno para, sorrateiramente e sem aviso prévio, derramar um pouco de café na camisa do velho. Agarrar carinhosamente o gato entre os dedos, sem que biólogo nenhum consiga explicar até hoje como o felino sobreviveu ao afago. Pendurar-se nos galhos mais altos da jabuticabeira ou cortar a machado uma palmeira de oito metros e fugir da queda de modo que o monstruoso tronco apenas partisse uma cadeira e uma mesa. Ficar atrás do pai (eu) no restaurante, esticar as orelhas e dizer, bem alto, para ninguém deixar de ouvir “olha, parece um orangotango”. Confundir as pernas e a barriga do pai (eu, de novo) com as de um outro senhor qualquer que estava passeando pelo shopping e enchê-lo de golpes de caratê ao grito de “ao ataque!”. Soltar-se trinta e oito vezes da cadeirinha do carro em meio do engarrafamento da Serra do Mar, ao ponto de fazer a mãe e o pai (io, sempre io) quase chorar de nervosos. Perguntar à mãe –quando ela ainda tinha pouco mais de 35 anos- bem alto e com uma voz grossa que negava o seu escasso metro e dez, “quantas plásticas você já fez mesmo?”. Nada, mas nada de todas essas peraltices, porém, conseguiram embaçar uma habilidade quase que extraterrestre para as piruetas, sejam elas na forma de artes marciais –judô, kungfu, jiujutsu- ou de dança de salão, forró, samba-rock ou twist.
Claro que até acertar o passo –não da dança, digo, mas das habilidades com as piruetas-, dezenas de idas e vindas ao pronto socorro e ao ortopedista aconteceram. Ao ponto de já nem precisar fazer ficha na clínica de fraturas, e todos os médicos plantonistas se lembrarem de mim e me cumprimentar pelo meu difícil sobrenome de gringo.

O tempo passou, e o Nando ficou bem mais calmo, pelo menos em aparência; uma estranha e persistente afeição pelos bichos e plantas de todas as espécies e famílias foi aproximando-o de Darwin, Ivan Pavlov, Santiago Ramón y Cajal, Gregor Mendel e outros curiosos que mudaram a vida da humanidade.

Agora, ao invés de pendurar-se em jabutiqueiras e mangueiras, enche a casa de camundongos, sapos empalhados, mariposas e insetos de diversas estirpes e pedigrees, se prepara para mergulhos oceânicos à la Jacques Cousteau, mas nem por isso deixa de enlouquecer mãe, irmã e cunhada com seus arroubos de Fred Astaire tropical.

Nandito, sem dúvida vai ser muito feliz e bem sucedido na marcha cotidiana pelo dito “vale de lágrimas” da vida, que só os escolhidos pela sorte, a competência e o esforço conseguem fazer virar um vale de flores e frutos; que nem as montanhas e vales de Catamarca, onde o querubim caçava sapos dissecados pelo ônibus em companhia do primo desconhecido; ou como as lombas mineiras de Areados e Alfenas, cujas galinhas e galos corriam espavoridos quando Nando arremessava seu bodoque em perseguição das coitadas chordatas galliformes, gallus domésticus em fuga.

O vale da felicidade é para os que lutam, perseguem, se fixam numa Utopia, e não a abandonam; porque um descendente de vascos, tehuelches, diaguitas, aragoneses, marranos e catamarqueños paulistanos não desiste dos seus sonhos, jamais.

       Javier Villanueva. São Paulo, 7 de fevereiro de 2013.




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