sábado, 6 de julho de 2013

O professor de inglês e a invenção do VCR



O professor de inglês e a invenção do VCR 

Mesmo nos anos de hoje, aquela seria uma família bastante singular; imagina então em 1983! Os Bairronovo eram sem dúvida, diferentes: o pai, um homem de 32 anos, com dois filhos, um de 11 e o outro de 8. A única mulher era a empregada: gorda, simpática, e muito folgada; tanto que conseguiu ser demitida –e recontratada- três vezes em menos de um ano e meio. É que ela contava para o bairro todo que era a mulher da casa, e enquanto os meninos morriam de rir, o pai bufava de raiva.

O prato preferido da singular família de três e uma empregada, era o frango com arroz; tão preferido que esse era o cardápio de segunda a sexta feira; e vale remarcar que quando fritavam bifes nos finais de semana, nunca  havia óleo, que o pai achava –e continua achando, pelo que eu sei- altamente cancerígeno. Essa falta de óleo era um dos principais motivos de pranto ou de calados soluços da empregada, a Neuza; o outro eram as eventuais namoradas, ou candidatas a tais que apareciam muito de vez em nunca na casa dos Bairronovo na rua Fradique Coutinho, em Pinheiros. Neuza se sentia traída, afinal, ela era a mulher da casa, e no mínimo, deveria ser consultada.

Enquanto isso, a menos de três quilômetros, o Carlos Assinari, funcionário antigo da Instituto de Pesquisa Tecnológicas da USP, se debatia na maior das dúvidas da sua vida. Tinha chegado aos 62 anos, depois de 45 de serviço, nos que havia trabalhado no Centro de Engenharia Naval e Oceânica, no de Integridade de Estruturas e Equipamentos, e no de Metrologia de Fluidos. Mas agora a direção já tinha avisado que ele deveria se aposentar até o final do ano de 1983.

Era setembro, e enquanto os Bairronovo se dividiam entre as aulas diárias dos meninos, as aulas de inglês que o pai ministrava de noite e as visitas a escolas para oferecer livros durante o dia- o Carlos Assinari morria de angústia. Tinha se fixado na ideia de fazer uma nova descoberta; algo novedoso e revolucionário no campo da ciência ou da tecnologia poderia salvá-lo da aposentadoria; mas nenhuma ideia tinha surgido no último mês.

Era sábado de manhã e o professor Bairronovo tinha ido substituir uma aula do coordenador da escola do CCAA no bairro de Pinheiros, bem perto da sua casa, e a menos de cem metros do apartamento de Assinari. O professor tinha levado os filhos, já que era o dia de folga de Neusa, a empregada.

Os meninos achavam que o pai era o dono da escola, e não um mero funcionário; e talvez por isso, mesmo que ameaçados de morte em caso de fazer bagunça enquanto ele lecionava, os filhotes não paravam de jogar bolas contra a janela da sala de aula; também! a diretora da escola e as professoras os chamavam de “lindos” e “fofinhos”, e isso só reforçava a falsa ideia dos meninos sobre a importância do pai deles na escola.

Esse sábado, para poder manter os filhos quietos até o final da segunda aula, durante o intervalo o professor ligou a TV para que assistissem um filme na Globo. Como a aula acabou e o filme ainda seguia rodando, os meninos queriam ver o final; mas o pai tinha que ir embora, e usou o mesmo truque que sempre usava nessas ocasiões; o professor Bairronovo ia para atrás do aparelho da TV e fazia de conta que mexia em alguns botões inexistentes enquanto falava: -“Pronto, já está gravando, podemos sair, depois vocês assistem”. Anos depois, em 1985, quando chegaram os primeiros videocassetes a São Paulo, o professor Bairronovo sempre comentava que ele tinha “inventado” a gravação, antecipando o novo produto com esse truque para enganar os seus filhos.

O que o professor e seus filhos não sabiam é que naquele sábado, exatamente no momento em que o pai se demorava atrás da TV para enganar os meninos, o cientista Assinari parava, apenas para amarrar o cadarço do sapato e, pé apoiado na gradinha da escola da inglês, assistia à cena, talvez esdrúxula para outros, mas não para ele, que de imediato entendeu tudo e teve a grande ideia da sua vida: inventar o gravador de vídeocassete.

O VCR –ou Video Cassette Recorder- era um aparelho eletrônico capaz de gravar e reproduzir imagens que ficavam registradas em fitas magnéticas acondicionadas em caixas plásticas. Com a invenção desse aparelho, Assinari ganhou mais uns vinte anos de trabalho extra no IPT. A tal ponto que, em 2002, quando o professor de idiomas –que já tinha se reciclado como editor de publicações em inglês e espanhol- entrava ao Instituto da USP com uma camionete carregada de caixas com protótipos de livros que iriam para uma licitação, com quem se deu de cara? Exato! com o cientista Assinari, que de imediato o reconheceu. Bairronovo, que não havia visto o cientista mais que uma ou outra vez enquanto passeava pela Fradique Coutinho com seu cachorro, não se lembrou dele de imediato.

Mas, voltemos por uns instantes à invenção do videocassete: a verdade é que o primeiro aparelho para esses fins foi o U-matic da Sony, que começou a ser vendido comercialmente em setembro de 1981, ou seja um ano antes da descoberta do Assinari. Mas o Brasil era um país bastante isolado nessa época e o nosso cientista da IPT só veio a se inteirar de tudo isso em 1985, quando as primeiras peças de VCR chegavam ao Brasil.

O Assinari não inventou o videocassete, é verdade, mas o IPT reconheceu o enorme esforço realizado pelo velho cientista e assim o manteve entre seus quadros até a idade dos 86 anos, poucos anos depois que o professor Bairronovo o encontrara na entrega dos seus protótipos de livros para a licitação.

O professor se surpreendeu com a nobreza do investigador octogenário que, sem dar tempo a nenhuma recusa, foi até uma gaveta da sua velha escrivaninha e reirou um gordo envelope de dentro.
-“Obrigado pela sua ajuda, tantos anos atrás”- disse e apertou fortemente a mão do professor, que saiu atônito, sem entender o que o velhinho estava agradecendo com tanta efusividade.


Chegando em casa abriu o envelope e, dentro dele, doze notas novinhas de um milhão de cruzeiros novos cada uma, e um singelo bilhete: “Obrigado pela grande ideia, amigo”.

FIM
Javier Villanueva, sobre uma ideia do Luciano Barrionuevo. São Paulo, 6 de julho de 2013.

Um comentário:

  1. lo que mas me llega de todo el cuento es la frase de cierre que la tengo como mensaje personal, compartir meritos seria como darle el crédito por un arbol grandioso a alguien que simplemte tiró una infima semilla en una tierra magicamente fertil..un honor que espero se repita todavia mucho, es la respuesta al mensaje..

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