sábado, 7 de setembro de 2013

Um homem valente e até audacioso.




Um homem valente e até audacioso.
Porém, sensato, humilde 
e sempre sorridente.

Foz do Iguaçu, 17 de outubro de 1981.

Tinham passado exatos dois anos e três meses depois da minha entrada legal no Brasil; mas, a situação não deixava de ser esquisita porque, embora meu ingresso ao país como turista tivesse sido dentro de todos os conformes, a saída da Argentina eu devia agradecer apenas ao documento de identidade que um tal de Julio Melgarejo tinha perdido na estação portenha do trem de Belgrano-R.

Tinha passado sem problemas na checagem da gendarmería argentina aquele 19 de julho de 1979, e passaria agora de novo, no meu primeiro retorno à pátria, me repetia a mim mesmo, uma vez atrás da outra. Meu velho me esperava em frente ao hotel da rua principal de Foz -naquela época uma pacata cidadezinha de fronteira- decidido a ajudar-me no retorno, e a dar-me forças para poder minguar o medo.

Passamos pela balsa e por uma rápida revista das malas, sem demasiada atenção nos documentos por parte da gendarmería da província de Misiones. Os militares estavam mesmo interessados era nos cinco ou seis jeans brasileiros que o meu pai -astuto como sempre- havia colocado bem à vista na malinha que carregava o mais ostensivelmente possível. Nem olharam para minha cara, mas também não se atreveram a confiscar nenhuma das peças que o velho levava com o único propósito de distrair os milicos. Tentaram, claro, mas não se animaram a consumar o achaque. Meu pai tinha conseguido seu propósito e seguíamos direto para Puerto Iguazú.
No dia seguinte chegamos na casa dos meus pais, depois de passar por duas novas revistas da gendarmería: primeiro, a 50 km da fronteira em Misiones, e mais tarde na estrada entre San Francisco e Córdoba.

Córdoba, 18 de outubro de 1981.

Fim da tarde do meu segundo dia na Argentina, depois de dois anos de exílio que já tinham se convertido em imigração. 
Sinto muito frio, mesmo sendo primavera. Ou será que é o medo? Estou num bar da galeria em frente à Plaza San Martín de Córdoba, esperando meu pai que foi até o Cabildo, a central de polícia, conversar com o marido de uma cliente. Como ele acabou de conceder três freezers dos seus sorvetes Laponia, a mulher acha que o marido não vai se recusar a facilitar-me um laissez-passer  para que eu possa ir sem riscos até a embaixada brasileira em Buenos Aires e, quem sabe, sair com a Modelo-18, documento indispensável, prévio à Modelo-19 que iria me garantir a permanência legal no Brasil.
O laissez-passer, para quem não sabe, é usado para viagens de ida para o país expedidor, por um período curto, sendo inválido para outros trechos, e substituindo o passaporte, quando por algum motivo é impossível obtê-lo, ou não é aceito pelas autoridades do país de destino. No meu caso era apenas para viajar em segurança os 703 km de Córdoba até Buenos Aires, e poder pedir o passaporte definitivo.

Buenos Aires, 19 de outubro de 1981.

O marido da cliente do meu pai não era um mero escrivão da polícia, como meu pai tinha me dito, talvez para não me apavorar mais. Era um subdelegado, e se bem emitiu de próprio punho o tal do laissez-passer, mandou dizer bem claramente que eu tinha um frondoso dossiê, com a tríplice comandância das principais forças guerrilheiras do país, que a essa altura já estavam desestruturadas e em retirada. Ou seja, o marido da cliente do meu pai me “deixava” ir com meu salvo-conduto até Buenos Aires, sempre e quando eu pegasse meu passaporte, arrumasse a Modelo-18 na embaixada brasileira...e sumisse. E, por quê? Porque eu tinha sido um perigoso malabarista que conseguira comandar três partidos revolucionários ao mesmo tempo, grandes organizações que haviam sido de um certo modo rivais, e que apenas quatro anos antes, em 1979, tinham tentado se aliar para combater a ditadura de Videla. Só um bando de milicos pra ter semelhante ideia estapafúrdia.

Eu não sabia se rir da besteira do subdelegado da polícia de Córdoba, abraçar o meu pai pela ajuda que me dava, ou chorar aos berros pelo medo que se metia nos ossos só de pensar que o tira sabia que eu estava bem perto dele, e prestes a viajar muitos quilômetros por dentro do país. Ou seja, podia prender-me a qualquer momento, e assim foi que paguei a conta do barzinho e saímos quase que correndo com o meu pai pela calle Rivadavia, olhando para trás para ver se não éramos seguidos, até entrar na rodoviária local e pegar o primeiro ônibus para a capital federal.
Pensei que meu velho iria me acompanhar só até a plataforma, mas não. Comprou fichas e achou um telefone pra ligar para minha mãe e avisar que viajaria comigo.

Entro na embaixada do Brasil, na Calle Cerrito na altura do 1300, bem no comecinho da Avenida Alvear e em frente à Plaza Carlos Pelegrini. O edifício é um dos palácios da burguesia portenha de inícios do século XX, herdeira das terras mapuches e tehuelches que passaram das mãos dos seus autênticos proprietários, os índios, para a oligarquia da capital, por obra e graça do general Julio A. Roca e sua sangrenta campanha ao que ele chamou de “deserto” patagônico, em 1878.

Enquanto eu nem reparava nos detalhes arquitetônicos e históricos do prédio, meu pai oficiava de “campana”, sempre caminhando uns vinte metros atrás de mim, e me esperando na entrada e à saída de cada lugar por onde eu arrastava o meu processo de documentação na nova pátria tropical.
Sair da embaixada com o protocolo de entrada à Modelo-18 até que foi fácil. Difícil mesmo foi pegar, antes disso, os outros dois protocolos -o do atestado de antecedentes da PF argentina e o do passaporte-, papeizinhos sem os quais não dava para iniciar a longa tramitação pelos labirintos kafkianos das burocracias dos meus dois países, o novo e o antigo.

Nada que o meu velho não pudesse resolver: outro amigo, agora um despachante de Águila-Saint, foi até a agência de viagens da sua confiança e mandou o vendedor pra deixar primeiro e pegar depois a documentação do passaporte e do atestado na polícia federal argentina. Fácil, não é? Para meu pai, sim. Disse ao vendedor que queria comprar a passagem aérea para São Paulo, o que nos anos 80 era quase que um luxo, mas que ele deveria ir e voltar com toda a papelada necessária da polícia.

E assim foi que sai com o meu passaporte –o atestado de bons antecedentes não saiu nunca, provavelmente porque o exército argentino ainda espera, desde 1976 y até hoje, que me apresente pra fazer o serviço militar-.

Bom, tudo isto foi para contar como era meu pai, homem valente, alegre, decidido e muito distraído, que por sorte não cometeu nenhum dos seus erros de distração ao longo desta rápida aventura; a não ser, claro, os cinco ou seis jeans que comprou na fronteira, exatamente num dia 17 de outubro, data em que os milicos tradicionalmente concentravam suas forças militares para recordar ao povo quem é que mandava naqueles tempos tenebrosos. Poderíamos ter sido presos por contrabandistas, mas com o meu pai sempre dava tudo certo.

Fim
JV, entre San Justo e Córdoba, 7 de setembro de 2013.




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