sábado, 30 de agosto de 2014

Marina, um fenômeno novo? E o Jânio? E o Collor?




Marina, um fenômeno novo? 
E o Jânio? E o Collor?

As eleições presidenciais que estão marcadas no Brasil para outubro deste ano, pareciam já dadas como resolvidas com a reeleição da presidenta Dilma. 

Porém, a morte num acidente de aviação do candidato opaco e quase sem força eleitoral própria -o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos em 13 de agosto- tirou o candidato de centro, de um partido socialista -o PSB- cada vez mais pró-business, do seu 3º lugar nas pesquisas (atrás de Aécio Neves,  candidato do "partido da ordem" da vez, o cada vez mais conservador e defensor da "austeridade", o PSDB).

Igual aos partidos trabalhistas britânico e australiano, ou como os novos liberais europeus, e do Partido Democrata dos EUA, os interesses das grandes empresas tomaram conta do P.S. Brasileiro que virou um novo partido da “Terceira Via”, uma agrupação pró-negócios, que só mantem a denominação de partido “socialista” para não perder a velha militância herdada do lendário Miguel Arres.

Os corpos do candidato do PSB, Eduardo Campos, e seus assessores ainda não tinham esfriado, depois do desastre aéreo que os matou, e já o suposto "filósofo" direitista Olavo de Carvalho -que só pode ser considerado um grande pensador por “gênios” ao estilo de Roger, o ex-cantor, ou o Lobão- postou no Face Book a seguinte mensagem: 

O governo torna sigilosas as investigações de acidentes aéreos e poucos dias depois já vem um acidente aéreo politicamente relevante. Ou o Acaso está gozando da nossa cara, ou não é acaso.”

Assim, foi ficando claro, durante o dia da desgraça - o 13 de agosto de 2014- e ao longo dos dias seguintes, a desinformação sobre a lei que foi sancionada pela presidente Dilma, e que torna sigilosa a investigação de acidentes aéreos no Brasil. Semelhante à desinformação que se espalhou na época das discussões acerca do Marco Civil da Internet, há quem prefira imaginar teorias conspiratórias que chegam a ver algum tipo de censura ou alguma trapaça da parte do governo ao ouvir ou ler a palavra "sigiloso" ao lado do termo "investigação". 

Uma cegueira assustadora - que aos poucos vira um ódio político quase sem precedentes desde a época da  "Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, de março de 1964- faz com que estas pessoas ignorem que existem convenções internacionais que cuidam da segurança aérea; essas normas existem, entre outras coisas e, por exemplo, para evitar que aconteça novamente o que ocorreu quando o acidente com a aeronave Let 410 da Nordeste Aviação Regional Linhas Aéreas (NOAR Linhas Aéreas), que em 13 de julho de 2011 se acidentou em Recife, quando realizava o voo 4896, morrendo 14 passageiros e dois tripulantes. O delegado encarregado das investigações desenvolveu um inquérito policial que na época foi o melhor modo de tapar as evidências por medo a punições. Um inquérito policial aberto faz as pessoas se sentirem pressionadas e evitam falar as verdades que poderiam salvar outras vidas no futuro. 

O que este sigilo que foi aprovado pela lei garante é que os investigadores do CENIPA possam levar adiante a sua investigação pesquisando o que realmente interessa, não liberando os dados sigilosos de uma gravação, por exemplo, para um delegado sem uma decisão judicial. É uma proteção para evitar que pessoas não vinculadas à aviação dirijam a investigação como se estivessem investigando um crime. Terminadas as investigações, o relatório será outra vez público, tal como acontece hoje. Um delegado de polícia não tem jurisdição sobre uma cena de acidente aéreo, a menos que existam indícios de uma ação terrorista. A investigação supõe-se que se orienta a saber com o máximo de exatidão científica o que aconteceu e propor melhoras para que nunca mais possa se repetir, e não apenas pesquisar à procura de um culpado, tal como aconteceria no caso de um acidente de carro.

Embora tudo isto possa ser claro e lógico, a insinuação temerária do Olavo de Carvalho teve rapidamente mais de 3 mil "curtir" e quase quatro mil e quinhentos compartilhamentos até o fim do dia 13/08/14, data do acidente. Entre os muitos outros que tiveram a ousadia de fazer insinuações semelhantes, também se destacou a candidata a deputada estadual pelo PSDB de São Paulo, Dany Schwery. A candidata foi ainda mais clara e direta, e até tratou de ser mais "engraçadinha" que o pretenso filósofo Olavo de Carvalho, e publicou um meme em que a presidenta da nação ri do acidente aéreo que matou o líder do PSB, Eduardo Campos, e ameaça os outros candidatos.

A deputada, pressionada por pessoas mais sensatas do próprio PSDB, retirou o post da sua página, mas antes ameaçou os internautas petistas e disse que só faria isso pela possibilidade desse seu post  atrapalhar o seu candidato, o Aécio Neves. A candidata Dany, com apenas 507 eleitores em 2012, dificilmente voltará a ser eleita, mas o PSDB paulista não desiste de promover pessoas como ela nas suas chapas regionais. 

A confirmação da Marina, em meio de toda a baixaria mencionada antes, passou finalmente pela decisão dos partidos que compõem a coligação "Unidos pelo Brasil". Além de PSB e PPS, que logo confirmaram apoio ao nome de Marina Silva, fazem parte da aliança o PHS, PRP, PPL e PSL. 
O acordo básico e que forma o eixo da coalizão, entre o PSB e a Rede Sustentabilidade -o grupo político da Marina exige que a candidata Marina cumpra com duas reivindicações do falecido Eduardo Campos: que respeite as alianças eleitorais do PSB nos estados, sobretudo com o PSDB em São Paulo, o que mais atormentava aparentemente a Marina, e que incorpore o discurso desenvolvimentista, supostamente conflitante com o -também suposto- conservacionismo e o anti-agro-business da legenda da que agora é candidata a presidente.

Antes da morte do candidato no acidente aéreo, a Marina não conseguia transferir-lhe seus votos, e ainda criou novas dificuldades políticas para Eduardo Campos, levando seu nome a patinar abaixo do 10% do eleitorado. Não fosse a sua trágica morte, ele sairia da eleição ainda menor do que entrou nela. E grande parte da culpa leria o nome Marina Silva.

Marina foi ministra do Lula por oito anos e deixou o governo ao notar que sua figura minguava ante o crescimento da influência da então ministra Dilma Rousseff. O Planalto era pequeno para as duas mulheres. E ainda deixou, ato seguido, o PV ao ver que a legenda não se dobraria a sua ânsia de poder. Eduardo Campos viu alianças importantes escorrer pelo ralo, porque a Marina atrapalhou sua candidatura. 

Mas tudo isto acontece hoje num contexto internacional em que os EUA tentam desestabilizar o Brasil e ajuda na criação de novas teorias conspiratórias: a CIA espionou a correspondência eletrônica e a conversação telefônica da presidenta Dilma e de vários dos seus ministros, o que levou a cancelar uma visita de estado a Washington; e o Brasil, hospedando o presidente Putin e os líderes dos BRICS no encontro de cúpula em Fortaleza, não agradou sem dúvida ao Departamento de Estado dos EUA. E isso acontece num momento em que a CIA só precisa achar os pontos frágeis no Brasil da Dilma e tentar criar aqui as condições de instabilidade que fomentaram em outros países na América Latina, como a Venezuela, Bolívia, Equador, e a Argentina com o bloqueio de créditos para o país, em operação desenhada pelo bolhonário norte-americano Paul Singer.
Mas a Dilma -que desafiou os EUA ao anunciar, com os BRICS em Fortaleza, a criação de um banco de desenvolvimento próprio para concorrer com o FMI, controlado por EUA e UE, parecia imbatível na reeleição, até o dia 13 de agosto, quando Campos e quatro de seus assessores, o piloto e copiloto, embarcaram no avião que cairia em Santos, matando todos a bordo.

O acidente fatal levou para a cabeça da chapa do PSB a candidata a vice-presidente, Marina Silva, que em 2010 recebeu inesperados 20% dos votos como candidata do Partido Verde. Nesse ano de 2014, ao não poder concorrer pela legenda de seu partido, a "Rede", Marina decidiu somar-se à chapa pró-business de Campos. Hoje, Marina já está configurada como a melhor aposta contra Dilma nas eleições de outubro.

Marina, uma evangélica militante, num país católico apostólico y romano, mas muito permeado pelas religiões afro-brasileiras, é conhecida por sua ligação à chamada "sociedade civil global" e aos grupos de "oposição" financiados por George Soros, capitalista mega-investidor e operador dos hedge fund globais. Conhecida por sua ação pela floresta amazônica brasileira, Marina é vinculada aos grupos ambientalistas patrocinados pelo Instituto Open Society, de George Soros. A campanha de Marina está cheia de palavras chave desapropriadas pelas organizações de Soros: "sociedade sustentável", "do conhecimento" e das "diversidades".

Por isso, enquanto o Santander enviava cartinhas desaconselhando o voto à Dilma, o Itau dava a cartada certa impulsando a Marina, e causava perplexidade e dúvidas em relação aos recursos da sua campanha e aos diversos personagens do “stablishment” que a apoiam. As contribuições, pouco transparentes, saindo de bolsos conservadores, enquanto os que a orientam em matéria de economia, como Eduardo Gianetti da Fonseca e André Lara Rezende, são conhecidos por sua tendência liberal e privatizadora.
"Para começar, ela não terá a menor aptidão para constituir uma equipe para tocar o dia a dia do governo, sem o que as melhores promessas e os mais avançados programas se desmancham no ar. Além disso, procedem as dúvidas sobre como se haverá no poder uma pessoa que dá motivos para crer que se julga eleita por Deus - o que esteve perto de afirmar depois da tragédia com o voo no qual também ela poderia ter viajado. Cabe indagar ainda como, avessa à "velha política", enfrentará a servidão de chefiar um governo sem maioria parlamentar. Marina presidente é prenúncio de uma crise depois da outra" (texto do Estadão)

Enquanto a velha UDN era obsessiva por fardas -os udenistas derrotados por Dutra em 1945, por Vargas em 1950, e pelo Juscelino em 1955, eram os militares Juarez Távora e Brigadeiro Eduardo Gomes- e pelo discurso moralista, os udenistas  modernos, à paisana, sempre colheram a insatisfação das classes médias urbanas que odiavam as políticas sociais do trabalhismo e odeiam hoje as do lulismo. Nos anos 50 e 60 o lema do udenismo era similar ao discurso dos eleitores tucanos, que hoje chamam a Bolsa Família de "bolsa-esmola".
Mas a UDN não era boa de voto, e sim para a agitação golpista; em 24 de agosto de 1954, Carlos Lacerda, o principal agitador udenista e seus aliados militares acuaram o trabalhismo e terminaram provocando o suicídio de Getúlio Vargas.
Mas como os udenistas continuavam sempre perdendo votos, em 1960 buscaram um candidato não partidário, o Jânio Quadros, um líder conservador histriônico, que vendia a imagem de ser contra os "conchavos políticos", e que finalmente levou os udenistas ao poder. "O jeito é Jânio" era o slogan de campanha, mas o seu governo viveu uma crise que o levou à renuncia antes de passado um ano no poder.

Em 1989, para evitar a vitória do perigoso Brizola ou do aterrorizador Lula, favoritos no pleito, já no fim da crise do governo Sarney, a Globo tomou o lugar da UDN e elegeu o Collor, "caçador de marajás” e suposto “inimigo de tudo que está aí", que caiu 3 anos depois. 

E novamente agora, em 2014, os setores mais conservadores já se aglutinam em torno de numa nova aventura. As três derrotas seguidas do PSDB-DEM levam os seus eleitores a vacilar entre o seguro perdedor Aécio Neves, enquanto a mídia, os bancos e o grosso da classe média parecem que já aceitam a Marina que promete ser capaz de derrotar a Dilma e o PT.
Os liberais neo-udenistas do PSDB histórico -FHC, Serra e Aécio- não conseguiriam derrotar Dilma e o PT no voto.

Mas a Marina Silva não é Jânio nem o Collor, pois tem uma trajetória de respeito, embora que está claro que já foi enquadrada pelo conservadorismo dos economistas neoliberais e do entorno da Neca Setúbal do Banco Itaú que comandam a campanha.
Aliada ao PSDB e ao DEM, a velha mídia ainda parece resistir em embarcar no marinismo. Mas em mais uma ou duas semanas, o jogo estará definido. Se o Aécio confirmar a decadência para abaixo dos 15%, e Marina passar dos 35%, a velha base udenista –sobretudo a paulista e paulistana- dará mais um salto no vazio de uma aventura desconhecida.
Até poucos dias atrás, o nome de Marina estava associado a um ponto de interrogação, embora nos bastidores houve, desde o dia 13 de agosto, um jogo nervoso de exigências e concessões. Marina fez e continuará fazendo o máximo para se mostrar confiável ante um mercado que rejeita o "estatismo" da Dilma.

A Marina Silva -carente de um partido já que a "Rede" não foi conseguiu ser registrada na justiça eleitoral- e aparentemente uma inimiga dos "conchavos"- é uma política profissional que finge detestar a política. Igual ao Jânio e o Collor fizeram no passado, aparece como uma ilusionista super-herói. "Até hoje, não foi testada como gestora, há incoerências entre seu discurso messiânico e o do partido, mais pragmático, e muitas situações a contornar nos estados”, disse o site noticias.terra.com.

As pesquisas mostram que -embora tente reagir com os seus aliados nas mídias e desmascarar Marina como uma "petista disfarçada"- os apoios ao Aécio se esfarelam dia após dia. As denúncias aparecem, mas a editora Abril e a Globo, centrais do pensamento conservador das elites, não vão arriscar a opção Marina que é a única que lhes sobra para tentar derrotar o PT da Dilma.
A Marina tem uma opção única também, com uma mídia louca para derrotar o petismo, com um PSDB em crise, um Aécio confuso com um discurso oposicionista que promete manter o Bolsa Família para um eleitorado tucano que diz que aquilo é ”bolsa esmola”. 

A poderosa máquina midiática, aliada até ontem ao tucanato, provavelmente não vai mais ajudar o PSDB, e o Aécio vai minguar ainda mais, perdendo até o governo de Minas para o PT.
A liderança messiânica da "nova política" é, a julgar pelo apoio do Itaú, uma parceria bastante confiável para os bancos, mas que num eventual governo com certeza será instável, como os governos Jânio e Collor.
Há mais de uma década que o velho udenismo que matou o Getúlio Vargas e derrubou Jango em 1964, trata de encurralar o Lula e o PT; e é por isso que agora vai embarcar em qualquer aventura –como a de apoiar a Marina- mesmo que isso signifique mergulhar outra vez no desconhecido.

Os setores mais conservadores, que odeiam o PT, vão desembarcar da candidatura Aécio e fortalecer à da Marina. Poderia se dizer que ainda é cedo para considerar essas tendências como definitivas, embora os votos oposicionistas já mudam de candidatura, fazendo crescer a Marina e pulverizando o Aécio, numa transferência de votos que dificilmente seriam do PT.
O pior pesadelo para os tucanos, porém, não significa que Dilma esteja perdendo votos, pois o que acontece é a transferência de votos no pólo oposicionista, com o que o PSDB terminará, pela primeira vez em 12 anos, perdendo o comando desse centro conservador.

Como disse Jean Wyllis, do Psol, "
Bastaram quatro tuites do pastor Malafaia para que, em apenas 24 horas, a candidata se esquecesse dos compromissos de ontem, anunciados em um ato público transmitido por televisão, e desmentisse seu próprio programa de governo, impresso em cores e divulgado pelas redes. Marina também retirou do programa o compromisso com a aprovação da lei João Nery, a elaboração de materiais didáticos sobre diversidade sexual, a criminalização da homofobia e da transfobia e outras propostas." E isso significa perder a toque de caixa todos os votos do movimento LGBT.

Enquanto isso, a madrinha financeira da Marina, a Neca Setúbal, coordenadora do programa do PSB, relativiza a inexperiência da candidata e acena com as suas fortes simpatias pelo mercado.


Em entrevistas, Neca confirma que a Marina manterá os compromissos do Eduardo Campos e irá conceder autonomia por lei ao Banco Central. Mais economistas "estarão se aproximando" durante a campanha, promete a Neca Setúbal, da família dona do Itaú. Para evitar o "preconceito" do mercado contra a Marina ela vai deixar cada vez mais claro que não é contra o agro-business e vai assumir -ao menos de palavra- todos os compromissos de E. Campos.
Como bem disse já o senador pernambucano Jarbas Vasconcelos, "Ela precisa arrebentar o preconceito, a indiferença e o medo. Ela tem que ser uma candidata leve, tem que dizer que, se ganhar a eleição no Brasil, não vai ter nenhuma tragédia. Ao contrário, vai ser um Brasil decente e correto. Vai ser um Brasil em que não apenas o homem que mora na periferia será ouvido. Vai ser ouvido o homem que mora na periferia, a classe média e o empresário."

Para os dois polos dos interesses sociais, econômicos e políticos em que se divide hoje a política nacional brasileira - repetindo um pouco os das épocas da luta popular contra o udenismo- a situação era muito clara até esta semana. A Dilma e ao PT interessava que a Marina seguisse reduzindo os votos nulos e brancos entre os eleitores mais jovens, canibalizando o patrimônio do Aécio, mas sem ameaçar as chances de Dilma, o que cada vez parece mais arriscado. O PSDB, por sua vez tratava, até 20 dias atrás, de usar o PSB e eventualmente a Marina para assegurar o segundo turno, com o Aécio no páreo, claro.

Nesse quadro complexo se enroscam hoje diversos elementos que os atores vão tentar administrar com cuidado. A aliança da Marina e o Eduardo Campos baseava-se numa suposta política de abandonar os “vícios da politicagem”. O editorial do Estado de S. Paulo da 6ª feira 15 de agosto, apenas dois dias depois do acidente, dizia que Campos não foi capaz de infundir substância à “terceira via”.

Semanas depois dessas desconfianças iniciais, Marina carrega as tintas num messianismo pós-moderno, e a VEJA já faz uma reportagem nada hostil, desenhando uma figura que chega a ser até simpática.

"Não caio nessa, sob pretexto nenhum, nem mesmo "para tirar o PT de lá". Na democracia, voto útil é voto inútil. Se Deus me submetesse à provação — espero que não aconteça — de ter de escolher entre Dilma e Marina, escolheria gloriosamente nenhuma!" diz o ultra-conservador raivoso da Veja e a Folha, Reinaldo Azevedo. O que demonstra que a direita está dividida.

Há menos de dois anos, Marina enfrentava o agro-negócio lutando por um Código Florestal que reduziria a área plantada. Como alternativa, ela assegurava um “ganho de produtividade” que compensaria as perdas.

E chegamos a um ponto, hoje, em que as pesquisas do Ibope demostram que o povo brasileiro sabe que a situação econômica é relativamente boa, e ainda acha que pode e vai melhorar. Porem, contraditoriamente, pensa que a economia do próprio país em que vive é a que vai mal. Mas, por que? Como é que o povo se sente bem economicamente, está otimista com o futuro e, ao mesmo tempo acha que a "economia do país" vai de mal para pior? É que o noticiário da mídia é totalmente negativo em relação à mega-economia, a economia dos grandes negócios, separado por completo da sua realidade, a do trabalhador e a classe média baixa. É fácil explicar o óbvio, pois o Brasil é o mesmo país onde o povo brasileiro vive hoje bem melhor do que vivia há dez ou quinze anos atrás. E esse não é o país das manchetes catastrofistas que parecem pintar uma outra nação, que nada tem a ver com o Brasil que vivemos hoje. Por que? porque para os interesses do país do grande business, as coisas poderiam ir melhor sem o PT, e a Marina e seu PSB de aluguel aparecem hoje como a melhor opção para isso.

Javier Villanueva, São Paulo, 30 de agosto de 2014.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Felipe Varela y la guerra del Paraguay



capítulo veintitres
Hoy parece que de nuevo tengo fiebre; escucho las voces de las enfermeras como si estuvieran lejos y, cuando el médico llega, confirma lo que me sospechaba: 38 y medio y además...estoy resfriado; ¡carajo!...es ridículo, en coma y resfriado; parece que me agregan un antifebril al goteo del suero y empiezo a adormecerme otra vez. Siento sed, sueño: estoy cerca del jagüel de Vargas, un pozo de agua, como un aljibe, pero mucho más grande, en el camino que sale de los llanos de La Rioja en dirección a Catamarca. Es el 10 de abril de 1867, y durante siete largas horas, desde el mediodía hasta el anochecer, veo la más sangrienta de las batallas de nuestras muchas guerras civiles.

Desde los comienzos de abril, el ejército mitrista del Noroeste venía siendo robustecido por tropas veteranas y con oficiales que habían ido a guerrear contra el Paraguay. Con los cañones, armas cortas y rifles de repetición con que los ingleses proveyeron Buenos Aires, la tropa del gobierno porteño pudo entrar a la ciudad de La Rioja y forzar a Felipe Varela a volverse y luchar hasta liberarla. A la delantera de sus montoneras iban los bravos Guayama, Chumbita, Medina y Elizondoabre el libro de historia de Vasconselos que trajo mi viejo, lo hojea, se despereza ruidosamente, y lee un par de páginas, Carlitos Fressie.
Ya en marcha, el caudillo catamarqueño lo llamó a Taboada, jefe de la tropa enemiga, a enfrentar sus ejércitos en las afueras de la ciudad, para evitar que los civiles pudieran convertirse en víctimas inocentes de los horrores de la guerra y “de los excesos de violencia que ni Vd. ni yo podremos evitar”cuenta Carlitos Fressie, cierra el libro con pereza, y se lo pasa al Chacho Rubio para que él me lo siga leyendo. Pero el general del partido porteñista no contestó. Con astucia y calculismo, fue armando sus fuerzas en el Pozo de Vargas, una vaguada en el camino por donde él sabía que vendrían las montoneras a tomar agua. Era el sitio seguro donde Varela pararía obligatoriamente con sus gauchos, que debían estar sedientos y extenuados por una marcha contínua y a todo galopelee el Chacho.
Los porteñistas de Mitre ya habían destruído todos los otros jagüeles del camino, dejándole tan sólo el Vargas, entrando a la ciudad, a unos dos kilómetros del centro. Taboada le dejó el pozo de agua de carnada, camuflando entre los troncos y las ramas los poderosos cañones y rifleslo escucho casi entre sueños a Carlitos Fressie, con voz monótona y cansada.

—La ventaja de los soldados del gobierno porteño, menos numerosos que los de la guerrilla norteña, era la supremacía de armamento; estaban descansados, y habían llegado con tiempo suficiente para elegir una mejor posición, en la que se situaron desde temprano para disponer el ataquetermina de leer en voz baja, cierra el libro, y se prepara para dormir antes que toquen el silbato de recoger en la Cárcel de Encausados, el Chacho Rubio. En efecto, al llegar, la tropa montonera sedienta y descuidada, fue recibida arteramente con una descarga brutal de fuego concentrado del ejército de línea de Mitredice mi abuelo Samuel. A pesar de la sorpresa de la emboscada, las cargas de los gauchos se fueron repitiendo una atrás de otra, a pura lanza y chuza, durante siete largas horas contra la imbatible posición de los cañones y rifles del astuto Taboadaagrega. Primero en lanzarse al ataque, como buen comandante que era, Varela de pronto hocicó y se cayó con su caballo junto al pozo. Pero la Dolores Díaz, una de las mujeres de su ejército montonero, de las tantas auxiliares enfermeras, cocineras, novias y esposas que, si fuera necesario, estaban siempre listas para agarrar las chuzas y los machetes por sus maridos, vió al jefe cayéndose y se lanzó al galope para salvarlo cuenta Victoriano. Y fue así, montado encima de las ancas del tordillo de la Díaz, más conocida entonces como la Tigra, que el caudillo se le escapó a la muerte segura de aquel inesperado tropezón en plena batalla— agrega mi abuelo Samuel.

Se ponía el sol y moría la tarde, con las últimas, dramáticas cargas de las lanzas de Varela; y también se apagaban las ilusiones de un alzamiento popular a favor del solitario Paraguay, atacado por el imperio brasileño y la Triple Alianza. Felipe Varela dio orden de retirada cuando le quedaba nada más que un puñadito de valientes a su lado. “¡Otra cosa sería con armas iguales!”, gritó con rabia y despechohojea el libro, ya sin demasiado interés, y se levanta para salir de mi cuarto del sanatorio, Carlitos Fressie. Aunque triunfante en la batalla, Taboada no tenía tampoco condiciones de perseguir y aniquilar a los vencidos, y estos se pudieron retirar casi en perfecto ordenle cuenta don Samuel a su tío Chazarreta.  Del aguerrido ejército de más de cinco mil gauchos que habían llegado sedientos al Pozo de Vargas al mediodía, ya no quedaban más que 180 hombres en la noche del trágico 10 de abril de 1867dice el Chacho Rubio y Victoriano concuerda con un movimiento lento de cabeza. Los demás estaban muertos o heridos, y los pocos sobrevivientes en condiciones de luchar corrieron a juntarse con el caudillo y reagruparse en la vecina villa de Jáchaldice don Samuel que leyó en Lanzas contra fusiles, de José María Rosa.
Pero Taboada también pagó caro por la victoria: “El escenario –le cuenta a Mitre en el informe– es crítico, perdimos la caballería, y gasté toda la munición, en La Rioja, y no hay quien nos facilite cómo reponer las pérdidas. Y como no hallaban quien que les quisiera donar de buena voluntad, ropas, alimentos o caballos, Taboada optó por la salida menos elegante posible: saquear la ciudad durante tres largos días y sus noches le comenta Andrés Chazarreta a don Samuel.

La fiebre me aumenta y oigo lejanas a las enfermeras, lo veo a Felipe Varela. —Un hombre alto, flaco y de mirada severa; recordaba de inmediato el tipo hidalgo, casi castellano, de los ganaderos del norte argentinodice Victoriano. Pero el catamarqueño de ley que tanto se parecía al Quijote en lo físico, también era capaz de abandonarlo todo, largando sus bienes, desoyendo los consejos prudentes del barbero y del cura del pueblo, para lanzarse al campo por una causa justa, que a cualquiera menos idealista, le pudiera parecer una locura— agrega Fuenzalida.  —Sí, y así lo hizo nomás en 1866, casi a los cincuenta años. Pero, diferente del Quijote de Cervantes, este caballero de los Andes sí tenía todo un pueblo aguerrido que lo seguía por entre las montañas, cruzando valles y llanosdice Chazarreta. Varela, que tenía estancia en Guandacol, había sido antes un oficial de línea,  segregado del ejército por apoyarlo al caudillo Chacho Peñaloza.
Al morir el Chacho se exilió en el vecino Chile, en donde sufrió el inicio de la guerra con Paraguay y vio, casi sin poder creerlo, la armada española bombardear Valparaíso— cuenta el Chacho Rubio. Y se indignó más con Mitre que se negó a apoyar a Chile y al Perú del ataque realista. Pero cuando supo en 1866 del siniestro Tratado de la Triple Alianza, vendió tierras y ganado y compró fusiles, machetes y dos cañoncitos chicos en desuso en Chile; equipó y armó a los exiliados argentinos, y apenas supo que había dejado de nevar en los cerros, cruzó la cordillera con su tropa—agrega don Andrés Chazarreta.

Al volver Felipe Varela a la patria, el desastre de Curupaytí, y las diez mil muertes que los bravos paraguayos le habían causado a las tropas de Mitre, sacudían al país. Aún sin plata suficiente para conseguirse buenos artilleros, se había gastado la última chirola en una banda de músicos, que les había endulzado el cruce de los Andes alentando a la tropa— cuenta Victoriano. La banda, totalmente fuera de propósito en una guerra tan inusitada, crearía la zamba dice Chazarreta, recopilador de canciones populares una mezcla de ritmo de la zambacueca peruana y chilena que terminó siendo el baile y la canción heroica de las últimas montoneras, la más popular de las músicas del noroeste argentino.

Hacia el mes de enero el poblado de Jáchal, en la provincia de San Juan, ya era el foco de acción de Varela— dice Carlitos Fressie. La noticia de su llegada con dos batallones de cien hombres, dos cañones y su singular banda de música, corrió como un reguero de pólvora por las faldas y valles andinosse ceba un mate, lo prueba y se lo pasa a Juancito, se recuesta en el catre y deja el libro, el Chacho Rubio. Miles de gauchos de Catamarca, San Juan, La Rioja, Mendoza, San Luis y Córdoba sacaron sus chuzas, recogidas desde las épocas del Chacho, montaron el mejor caballo que hallaron a mano y, a veces tirando otro pingo en el lazo, fueron al encuentro del jinete montonero que les serviría de banderín de enganchele recibe el mate y sigue la charla Andrés Chazarreta.
A los pocos días Varela ya cuenta más de 4 mil hombres, pero tiene tan sólo cien fusiles. El uniforme es el poncho colorado y un sombrero simple, con la lema rojo que dice “¡Viva la Unión Americana! ¡Mueran los negreros traidores a la patria!”, y ropas de paisano, para abrigarse en el frío de la cordillera chupa la bombilla, devuelve el mate y se lo pasa a don Samuel, el Chacho. Hay una moral inflexible, que dice que un soldado americanista debe ser un ejemplo de humanidadabre el libro que había dejado el Chacho, recibe el mate y se prepara para seguir leyendo, Carlitos Fressie.
Al atardecer, Varela juntaba sus gauchos montoneros y al batallón de mujeres que los acompañaban, y les repasaba la proclama que había escrito y que repartieron por todo el país— se levanta del borde de mi cama, mira por la ventana del sanatorio Sobremonte las hojas ocres que caen de los plátanos, les hace una seña a Carlitos y al Chacho, y se prepara para irse, mi abuelo Victoriano; el viejo se pone el poncho y el sombrero, y sale cabizbajo y silencioso, justo cuando entra la enfermera de guardia.

La letra del manuscrito de mi padre se vuelve casi ilegible al finalizar el cuarto cuaderno “Laprida”; la marca del lápiz tinta se borroneó un poco en algunas partes, tal vez por causa de la humedad de la pared del fondo del sótano de Bedoya donde mi mamá lo encontró, debajo de la caja del Mecano y del “Chán, el Mago que Contesta”. La pila de los Billiken que mi vieja me trajo junto con el cuaderno me llama la atención durante un buen rato, pero al final vuelvo al “Laprida”; el viejo sigue haciéndolo viajar al secretario de Carlos Prestes, Toninho Saldanha, riograndense de Lagunas, perdido en los valles de Catamarca, loco atrás de Villanueva, que no aparece y nadie sabe en qué momento se esfumó en el viaje de Buenos Aires a Córdoba; leo:


El ómnibus de las tres llegó y el Negro Unzaga se bajó a verla un rato a la Gringa y a Eufemia antes de seguir para la Falda en el 7 de las cuatro de la tarde; lo saluda a Saldanha y le da la mala noticia: —Parece que mi sobrino no va a poder venir a Catamarca; me llamaron de Córdoba y dijeron que se descompuso en el viaje desde Buenos Aires— dice el Negro, y le oculta a la Gringa y a doña Eufemia, que está ya muy viejita, que en realidad Javier sufrió un grave accidente cardiovalcular, o una especie de síncope, no le supieron dar detalles, porque la Tina estaba muy nerviosa, y la llamada de Córdoba estaba llena de ruidos, pero al final parece que lo han internado en estado de coma.

Lea más en "Crónicas de Utopías y de Amores, de Demonios y Héroes de la Patria" (JV. 2006)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

La triste historia de don Benito. Final.


Imagen: Ricardo Carpani pintor argentino

Lea las primeras partes de este cuento en:
http://javiervillanuevaliteratura.blogspot.com.br/2014/07/la-triste-historia-de-don-benito-cuento.html?spref=fb

La triste historia de don Benito

El genocidio es un delito internacional que incluye "cualquiera de los actos perpetrados con la intención de destruir, total o parcialmente, a un grupo nacional, étnico, racial o religioso como tal".

Son actos que comprenden la "matanza y lesión grave a la integridad física o mental de los miembros de un grupo, el sometimiento intencional del mismo a condiciones de existencia que vayan a acarrear su destrucción física, total o parcial, con medidas destinadas a impedir los nacimientos en el seno del grupo, con traslado por la fuerza de niños del grupo a algún otro grupo".

El concepto fue definido por primera vez por el jurista judío polaco Raphael Lemkin, que en 1939 había huido de la persecución nazi y hallado asilo en los Estados Unidos.


“En Argentina hubo un genocidio que buscó la destrucción de la identidad de una sociedad"

El sociólogo Daniel Feierstein, especialista en temas sobre genocidio y director del Centro de Estudios sobre Genocidio de la Universidad Nacional de Tres de Febrero, Buenos Aires, dice en su libro “Memorias y representaciones sobre la elaboración del genocidio”, resultado de dos décadas de investigación sobre el asunto:

"¿Por qué los hechos ocurridos durante la última dictadura militar constituyen un genocidio?

Rafael Lemkin desarrolla el concepto de genocidio en un libro que escribe en 1943 y se publica al año siguiente, mientras los hechos del nazismo se están desarrollando; plantea que el genocidio se constituye básicamente como la destrucción de la identidad de un pueblo, de una sociedad. El eje de un proceso genocida es la destrucción de la identidad y esa destrucción de identidad se vincula a la opresión. Lo que dice Lemkin es que lo que se busca con el genocidio es eliminar, transformar la identidad del grupo oprimido e imponer la identidad del grupo opresor. No hay ninguna duda que en el caso argentino lo que se buscó fue transformar la identidad del pueblo". 


Última parte. Final

La derrota en el conflicto bélico de Malvinas dejó salir a la superficie, de un modo más intenso, el tema de los desaparecidos políticos. Las organizaciones defensoras de los derechos humanos intensificaron sus campañas desde el fin de la guerra y por todo el año de 1982. 

Don Benito Bignone, mientras tanto, trataba de negociar con la Multipartidaria, que había sido formada por Ricardo Balbín, jefe histórico del radicalismo, a mediados de 1981, poco antes de su muerte para negociar con el dictador-presidente anterior, Viola. 

El 5 de diciembre de 1982 Pérez Esquivel, premio Nobel de la Paz de 1980, lideró una imponente marcha contra la autoamnistía que planeaba el gobierno. Ese mismo día, la CGT llamó a una huelga general, y el 16 de diciembre la Multipartidaria movilizó a unas 100 mil personas en la Capital Federal, produciéndose una represión brutal en la que muere asesinado de un tiro el joven peronista Dalmiro Flores. 

Varios países europeos reclamaban, mientras tanto, por los ciudadanos descendientes de familias italianas, españolas, francesas y alemanas que formaban parte de las largas listas de los presos desaparecidos. 

En 1983 las marchas de denuncias y reclamos se repetían. En el mes de agosto, la organización de las "Abuelas de Plaza de Mayo" se sumaba a las "Madres de Plaza de Mayo". En septiembre el gobierno militar decretó por fin su elaborada autoamnistía, llamada la "Ley de Pacificación Nacional". 

Como le diría una década después Tristán Bauer al director de la Librería Española -al presentar su película "Iluminados por el Fuego" en el Memorial da América Latina de São Paulo- el año de 1983 fue decisivo para todos los argentinos porque fue entonces que terminó la última dictadura militar y empezó el período más largo de democracia moderna que conoce el país. 

Don Benito, más conocido por sus compatriotas como el general-presidente Reynaldo Bignone, salió del coche de su escolta personal, ladeado por el Negro Tony en su disfraz de sargento de la policía federal.

Su joven amante -o ex-amante, a esa altura- la linda treintañera Roberta, fingiendo para consumo del general estar siendo amenazada por la azafata de uniforme azul, aparentando calma, se acerca a don Bignone y le dice:

-Por favor, hacé todo tal como lo arreglamos en el departamento; tengo miedo, Benito- y el viejo general, cansado de guerra, decide hacer con exactitud lo que él mismo le había propuesto al grupo de revolucionarios que lo secuestrara de un modo tan insólito y original.

-Señores y señoras, seré muy breve. El gobierno del proceso de Reconstrucción Nacional que presido, ha decidido llamar, de um modo irrevocable, a comicios nacionales, en acuerdo con los partidos políticos, para el próximo dia 30 de octubre. Buenas noches- y con estas palabras en la Red Nacional Azul y Blanca de radio y televisión, el general Benito pasaba por encima de sus compañeros de armas y largaba el poder político en nombre del ejército, pensando librarse así del juicio de la historia.


El 30 de octubre de 1983 finalmente hubo elecciones, en las que ganó Alfonsín,  el candidato de la Unión Cívica Radical, con  52% de los votos.


Juan, el Negro Tony, el Viejo Pedro y la azafata del vestido azul, se fueron con Roberta y Manuelita a festejar en la casa de amigos en Villa las Antenas.

Benito, el último general-presidente se fue a casa, a contarle a doña Ana por qué había decidido hacer lo que hizo. Doña Ana se quedo feliz, y el general-presidente durmió tranquilo esa noche, pensando que había hecho lo mejor, y que así se salvaría el pellejo a la vuelta de la democracia. Era inevitable, pensó.

Pero, una vez formado el nuevo Congreso en noviembre y con la asunción de Alfonsín a la presidencia el 10 de diciembre, Bignone fue juzgado por el tribunal convocado para dictaminar la responsabilidad de las juntas militares. 

Fue culpado de secuestros, torturas y asesinatos cometidos durante su comandancia del campo de concentración de Campo de Mayo, pero antes de dictarse la condena fue liberado por las leyes de Punto Final y Obediencia Debida en 1986. Igualmente fue juzgado por la destrucción de documentos de la represión antes de terminar su último gobierno de facto, y permaneció detenido en julio de 1989 hasta que fue indultado por Menem en octubre de ese año.

En 1999, tras reabrirse las causas por secuestro de menores, Bignone fue puesto de nuevo a disposición de la justicia. Por su avanzada edad, recibió el beneficio del arresto domiciliario.

Una década más tarde, en 2009 se anunció el inicio del juicio oral en contra de Benito Reynaldo Bignone, por el secuestro, tortura y desaparición de médicos, enfermeros, y empleados del Hospital Posadas, de El Palomar, provincia de Buenos Aires.

En abril de 2010, a los 82 años, Bignone fue condenado a 25 años de prisión como coautor  responsable de 56 casos de allanamientos ilegales, robo agravado, privación ilegítima de la libertad e imposición de tormentos en el centro de torturas y exterminio que funcionó en el complejo militar de Campo de Mayo. Y los iría a cumplir en  cárcel común.

En su defensa, el general Benito R. Bignone usó las mismas expresiones con las que habían tratado de defenderse otros partidarios de la última dictadura militar argentina:

"35 años más tarde, quienes se atribuyen ser herederos de los principios y doctrinas se arrogan el derecho de pretender hacer justicia vulnerando los más claros postulados de la justicia penal para juzgar y condenar a quienes nos tocó cumplir con aquellos claros propósitos."

Además, justificó la represión ilegal contra los partidos y grupos guerrilleros de izquierda por medio del terrorismo de estado, argumentando que: 

"La lucha contra el terrorismo en los años 60 y en los 70 se trató de una guerra contra integrantes de grupos subversivos que no eran ni demasiado jóvenes ni idealistas", ..."su ideal era la toma del poder por la fuerza subversiva".

"Se nos tilda de genocidas y represores. Lo de genocida no resiste el menor análisis, lo ocurrido en nuestro país no se adapta a lo más mínimo al concepto internacional de genocidio"..."Acá no hubo más de 8 mil desaparecidos, cifra que no es superior a las cifras de la inseguridad actual".

"Se machaca con que hay 30 mil desaparecidos. Jamás se mostró la veracidad de esta cifra. No niego que la desaparición de personas sea delito en paz, en tiempos de guerra tiene otra clasificación. Nunca se demostró que en 10 años de guerra fueron más de ocho mil. Se baraja la cifra de bebés desaparecidos; resulta sensible e impactante. Pero de esas desapariciones ninguna figura el poder militar. En todos los casos son dichos por terceros".

Pero a pesar de todas sus largas argumentaciones, en abril de 2011, Bignone fue condenado a la pena de reclusión perpetua, con cumplimiento en cárcel común, por delitos de lesa humanidad.

Y en marzo del año 2013, el tribunal consideró que el último dictador era responsable de haber cometido crímenes de lesa humanidad  también por los casos de Campo de Mayo. Finalmente fue condenado a cadena perpetua por causa de los secuestros, torturas y desapariciones ocurridas en el centro clandestino que funcionó en el que fuera el mayor cuartel militar del país. 

Terminaba así el período más negro de la historia del país, que había empezado con el Operativo Independencia ordenado por Isabel Perón en febrero de 1975 en Tucumán, y que las tres sucesivas juntas militares perfeccionaron en su guerra sucia contra las organizaciones obreras y populares, los partidos de izquierda y los grupos guerrilleros, con el aval inicial de los EEUU, según ellos, como el único modo de terminar con la "amenaza del comunismo".

Fin
Javier Villanueva. São Paulo, 22 de abril de 2014.