domingo, 11 de outubro de 2015

O que festejar o 12 de outubro?


Vamos lembrar do Cristóvão Colombo, do dia "da Raça (!?)" na velha Espanha, ou então dos  523 anos da chegada das três caravelas às praias da que hoje chamamos de América?

América, sim, graças ao gênio do MKT da época, o Américo Vespúcio, quem sem nunca ter vindo pros tristes trópicos e subtrópicos, embasbacou meia cartografia europeia e convenceu reis e plebeus que os seus feitos eram maiores do que o obscuro e mal assessorado -sempre do ponto de vista do MKT, Cristóvão Colombo.
Sim, 523 anos em que os "índios" (outra confusão da época, já que achavam que tinham chegado nas Índias) deixaram de ser nações, negros vieram acorrentados da África para completar o serviço que os povos nativos não conseguiam cobrir a contente, e sórdidos aventureiros viraram latifundiários somente com a astúcia e a coragem de ser violentos e trapaceiros. 

Pouco a festejar. A não ser, como disse Pablo Neruda, que "nos llevaron el oro, nos dejaron el oro", referindo-se ao idioma espanhol, que é hoje a língua comum do continente, junto com os idiomas nativos -nahualt, maia, quechua, aymará, guarani e mapuche, só pra mencionar os mais numerosos. E pra não dizer que esqueci das crianças, vai aqui um Colombo mirim.

E, pra não dizer que não falei das flores, aqui vai o Neruda prometido:

"Que buen idioma el mío, que buena lengua heredamos de los conquistadores torvos… Éstos andaban a zancadas por las tremendas cordilleras, por las Américas encrespadas, buscando patatas, butifarras, frijolitos, tabaco negro, oro, maíz, huevos fritos, con aquel apetito voraz que nunca más se ha visto en el mundo… Todo se lo tragaban, con religiones, pirámides, tribus, idolatrías iguales a las que ellos traían en sus grandes bolsas… Por donde pasaban quedaba arrasada la tierra… Pero a los bárbaros se les caían de las botas, de las barbas, de los yelmos, de las herraduras, como piedrecitas, las palabras luminosas que se quedaron aquí resplandecientes… el idioma. Salimos perdiendo… Salimos ganando…Se llevaron el oro y nos dejaron el oro… Se lo llevaron todo y nos dejaron todo… Nos dejaron las palabras."

Pablo Neruda - Confieso que he vivido

Javier Villanueva

São Paulo, 11 de outubro de 2015


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