terça-feira, 12 de abril de 2016

O Fato-maldito chamado Lula e o petismo




O Fato-maldito chamado Lula

Um personagem quase mítico da longa história de lutas na Argentina, John William Cooke, esculpiu una frase que deixou uma marca enigmática na vida política e intelectual ao afirmar que o peronismo é “el hecho maldito del país burgués” –o fato maldito– num país em que as oligarquias do agro e o gado geraram uma classe industrial fraca e entreguista nas mãos do capital financeiro internacional.

A frase é explosiva, contundente e cheia de interpretações que não se esgotaram, ainda que passados 70 anos depois daquele também mítico 17 de outubro de 1945, com Evita agitando nas fábricas e sindicatos e as massas operárias atravessando o rio e lavando os pés nas fontes de Buenos Aires; nem com tantas diversas vicissitudes nacionais, mas com todo o dramatismo, o Brasil também conheceu em outra escala e com outros matizes esses confrontos de classes e esse protagonismo das suas figuras políticas, como o Getúlio Vargas do segundo período e o Juscelino Kubitschek, hoje concentrado no “fato maldito” chamado Lula e o PT.

A frase de Cooke dividiu as águas no interior, sempre tumultuoso e contraditório, do movimento peronista, mas também comoveu as esquerdas argentinas e reposicionou a sua difícil relação, sempre labiríntica com esse corpus político decisivo da vida argentina. E não só no campo popular, mas também no dos partidos das classes dominantes, a frase retumbou como uma advertência sobre um movimento político que, desde os longínquos anos de 1940 até os nossos dias, tem sido o eixo vertebral dos acontecimentos e das encruzilhadas pelas que continua atravessando o país que é o nosso vizinho mais importante ao sul.

Disparada a queima-roupa por John William Cooke, a frase sem dúvidas tentava comover a tendência, sempre presente no peronismo na Argentina, à sua cooptação pelo sistema, a esse processo que parecia cristalizar-se na transformação do seu caudal popular e renovador numa força capturada pelas exigências dos interesses da burguesia contra os quais Evita e os peronistas da primeira hora se havia rebelado, representando todo o vigor dos operários e trabalhadores da cidade e do campo, sobretudo o daqueles que tinham se expressado até os anos 40 pelo anarquismo, o PC, o socialismo e os trabalhistas.

Passados quase 60 anos, a democracia burguesa foi novamente questionada pelo povo argentino em 2001 quando foi rompida a governabilidade, com o grito popular de “que se vayan todos”. E de um modo parecido, desde as manifestações de junho-julho de 2013 no Brasil, também acontece no Brasil, onde as classes médias urbanas saíram às ruas e aos poucos passaram das consignas democráticas e progressistas ao grito contra o PT e o governo Dilma, sendo paulatinamente tomadas pelo ódio e o preconceito, aceitando lideranças como o MBL, Bolsonaro e outros elementos da direita organizada.

Assim como ocorre no Brasil com o petismo, muitos acham que na Argentina de hoje o peronismo já não é mais “el hecho maldito del país burguês”. A classe média não quer ser incomodada pelas reivindicações populares e odeia ver a ascensão das classes mais pobres ao consumo. Mesmo que ao longo da história e em várias ocasiões os setores médios tenham jogado um papel muito importante contra o regímen oligárquico e burguês, a favor da democratização e na luta pelo voto livre. Mas a classe média, nascida na Argentina com o peronismo, assim como cresceu de modo notável no Brasil do Lula e a Dilma, foi se incorporando ao sistema e começa a manifestar um fenómeno de versatilidade ideológica que faz com que quando está mal na economia, a classe média participe e responda bem no jogo da política nacional, mas quando está muito bem economicamente, jogue um papel reacionário politicamente.

Por isso tudo é que o Lula e o petismo representam no Brasil um “fato maldito”. Uma herança direta do trabalhismo de Vargas e do nacional-desenvolvimentismo de JK, somada às tradições de luta dos novos movimentos sociais e populares de esquerda: o MST, MTST, os novos sindicatos classistas da CUT e os estudantes da UNE.

O Lulismo e o próprio PT não são as ideologias, nem representam as políticas dos sonhos da esquerda independente que vem crescendo sem se filiar ao PSOL nem menos ainda ao PSTU, partidos menores desprendidos do movimento petista. Um grande número de ex-petistas, que não acreditaram nunca que o partido faria a revolução socialista, espera ainda ver novas opções crescerem, e não é difícil imaginar que a juventude dos bairros e das escolas, que cada vez se identifica mais com as posições democráticas e progressistas, vão engrossar essa tendência.


Javier Villanueva, São Paulo, 12 de abril de 2016.

Revista Veintitres en http://veintitres.elargentino.com/nota-3411-politica-El-hecho-maldito-del-pais-burgues-y-la-actualidad.html

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